Amadeo de Souza Cardoso – conheça a vida e obra de um pintor fabuloso!

Neste artigo conheça Amadeo de Souza Cardoso – um dos mais fabulosos pintores da modernidade e muitas vezes esquecido.

Amadeo de Souza Cardoso foi um pintor magnífico que produziu mais de 100 obras de arte (entre desenhos, caricaturas e pinturas) e que deixou este mundo muito cedo! Espero que algum dia alcance o reconhecimento que realmente merece!


Fonte das imagens – wikiart.org


A maioria dos pintores e escultores portugueses ainda são internacionalmente desconhecidos. A meu ver, isto deve-se ao facto de Portugal ter sido sempre um país periférico, situado no extremo ocidental da Europa e distante dos principais centros artísticos europeus como a Flandres ou Itália.

Além disso, a maioria da população portuguesa desconhece a genialidade de muitos pintores como Veloso Salgado, Henrique Pousão, António Carneiro ou Eduardo Viana ou o enorme talento de escultores como António Soares dos Reis, António Teixeira Lopes ou Joaquim Machado de Castro.

Nasce um génio | Amadeo de Souza Cardoso

Amadeo de Souza CardozoAmadeo de Souza Cardoso está no grupo de pintores fabulosos que ainda não alcançou o justo reconhecimento que realmente merece. Nasceu em Manhufe, na deslumbrante região de Amarante (uma pequena cidade situada a 70 km a este do Porto), em 1887. Os seus pais tiveram 12 filhos: ele foi o quinto. O seu pai, José Emídio, herdou a fortuna da família, completou os seus estudos no Porto e estabeleceu-se em Manhufe onde se tornou um respeitado produtor de vinho. Os antepassados de José Emídio emigraram para o Brasil quando o exército francês de Napoleão invadiu Portugal no início do século XIX  (1807-1811).  No Brasil, conseguiram acumular uma grande fortuna com o comércio de diamantes.

Lisboa, 1905: o futuro arquiteto

O pai de Amadeo permitiu que o jovem fosse para Lisboa estudar Arquitetura na Academia de Belas-Artes, em 1905. Lisboa era, naquela altura, uma cidade muito mais cosmopolita do que o Porto ou do que Amarante.

O ambiente político e social vivido na capital era muito tenso: Lisboa estava à beira de uma revolução republicana. A Monarquia portuguesa estava constantemente a ser criticada pelos responsáveis republicanos. A corrupção e a incompetência dos políticos portugueses produziam cada vez mais descontentamento entre a opinião pública portuguesa. A revolução finalmente ocorreu no dia 5 de outubro de 1910, dois anos após o assassinato do rei D. Carlos I, em Lisboa, na Praça do Comércio. Consequentemente, o regime monárquico foi abolido; a família real portuguesa, os Bragança, fugiu para o exílio; e a Primeira República foi instituída pondo fim a quase 800 anos de regime monárquico. Este novo regime republicano durou até 1926, quando foi derrubado por uma revolução militar. A Primeira República portuguesa foi marcada por uma enorme instabilidade política, por sérios problemas económicos e sociais, por greves permanentes e pela pobreza generalizada de uma população portuguesa cada vez mais faminta e sem perspetivas de futuro. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, em 1916, com o objetivo de proteger as colónias africanas dos ataques do exército alemão não ajudou a extremamente frágil e vulnerável economia portuguesa.

Amadeo pertencia a uma família católica conservadora que apoiava o regime monárquico. O seu tio Francisco costumava caçar com o rei D. Carlos I. Amadeo não acreditava no movimento republicano e apoiou a Monarquia portuguesa até ao fim.

Não esteve presente durante a revolução republicana pois, em 1906, deixou Lisboa e foi viver para Paris onde continuou os seus estudos de Arquitetura. Estava cansado da vida quotidiana de Lisboa e profundamente descontente com o academismo, as ideias pré concebidas e a falta de originalidade! Estava ansioso por algo novo e Paris foi a resposta.

Paisagem 1912 Amadeo de Souza Cardoso

Paisagem 1912

Amadeo de Souza Cardozo | A vida em Paris

Em 1906, Paris era um centro de arte moderna e de ideias vanguardistas. Amadeo de Souza Cardoso viveu em Montparnasse, um bairro famoso pela vida boémia de artistas como Picasso ou Max Ernst. Amadeo perdeu rapidamente o interesse pela arquitetura e decidiu continuar a sua carreira como pintor modernista.

Passou 8 anos nesta fabulosa cidade. Foi certamente um período de tempo muito fértil para Amadeo pois estabeleceu muito boas relações com alguns dos melhores pintores daquela época tais como Amedeo Modigliani (que se tornaria um dos seus amigos mais próximos), Juan Gris, Robert e Sonia Delaunay, Francis Picabia, Paul Klee e Marc Chagall e com outros grandes pintores portugueses como Acácio Lino ou Eduardo Viana. Estava consciente que fazia parte de uma época de mudança.

Amadeo participou em vários encontros sociais com outros artistas e teve a oportunidade de exibir alguns dos seus quadros nos salões de Paris e noutras cidades como Hamburgo, Colónia, Berlim e Londres.

Simultaneamente, fez alguns desenhos e caricaturas para alguns jornais portugueses e franceses e teve o privilégio de admirar as pinturas dos pintores flamengos primitivos numa viagem a Bruxelas.

Modernismo: um novo movimento artístico

O Modernismo foi um novo movimento artístico nas belas-artes, filosofia e literatura que desejou romper com o passado, com as ideias preconcebidas e as tradicionais conceções artísticas.

Este novo movimento artístico teve provavelmente a sua origem no final do século XIX e influenciou uma grande variedade de pintores como Paul Cézanne (1839-1906), Paul Gauguin (1848-1903) ou Henri Matisse (1869-1954). Estes artistas defendiam uma mudança radical e optavam por representar os objetos utilizando linhas, formas e cores diferentes.  O Cubismo, por exemplo, foi um movimento artístico que fragmentou o objeto e que usou formas geométricas para expressar os diferentes ângulos do mesmo.

Painting 1917 Amadeo de Souza Cardoso

Pintura 1917

Amadeo de Souza Cardoso | um pintor complexo

Amadeo nunca desprezou as suas origens. Nas cartas ao seu tio Francisco e à sua esposa e amigos percebe-se que amava as tradições locais (como as touradas) e que desfrutava as cores intensas do campo durante os seus passeios a cavalo pela serra do Marão.  Além disso, Amadeo parecia gostar quando a sua mãe e as suas irmãs se ajoelhavam na cozinha e rezavam a Deus sempre que havia tempestades que assustavam o resto dos habitantes de Manhufe.

Simultaneamente, Amadeo de Souza Cardoso amava a velocidade e o dinamismo da vida moderna numa grande e cosmopolita cidade como Paris. A serra e a cidade sempre dividiram Amadeo que, ao mesmo tempo que seguia o movimento de arte moderna,

Não se revoltava contra o passado ou mesmo o ignorava – tal era defendido por Filippo Marinetti, o fundador do movimento futurista, em 1909, o qual queria destruir o culto do passado e fundar uma nova civilização baseada na ciência, na maquinaria e nas mudanças tecnológicas.

Amadeo expressou todos estes sentimentos e conceções nas suas obras de arte.

Foi simultaneamente um pintor figurativo e abstrato que usava as formas geométricas nos seus quadros e que foi influenciado pelas obras de Gino Severini (1883-1966), Fernand Léger (1881-1955), Umberto Boccioni (1882-1916), Amedeo Modigliani (1884-1920), Juan Gris (1887-1927) e Georges Braque (1882-1963). Foi ao mesmo tempo um pintor Impressionista, Cubista, Futurista, Expressionista e Simbolista e não seguia nenhuma escola de arte: odiava o academismo e a imitação das obras de arte antigas, desprezando a arte renascentista.

Procurou sempre a autenticidade e a liberdade total nas suas pinturas. Não tinha um estilo predefinido: estava constantemente a mudar. As suas pinturas são coloridas e apaixonadas e nelas é possível percecionar o dinamismo e o movimento dos objetos representados.

Os galgos 1911 Amadeo de Souza Cardoso

Os galgos 1911

O reconhecimento internacional

Amadeo de Souza Cardoso alcançou o reconhecimento internacional em 1913 quando 8 dos seus quadros foram expostos no Armory Show, a primeira Exibição Internacional de Arte Moderna que contribuiu para introduzir a arte modernista nos Estados Unidos. A exposição foi realizada entre fevereiro e maio e Amadeo foi um dos 300 pintores – e entre eles estavam grandes nomes da pintura ocidental como Manet, Gauguin, Van Gogh ou Cézanne – que teve a honra de exibir alguns dos seus trabalhos.

Além disso, foi um dos 10 pintores que mais quadros vendeu na exposição!

Untitled (Portrait of Paul Alexander) 1917 Amadeo de Souza Cardoso

Untitled (Portrait of Paul Alexander) 1917

O movimento modernista em Portugal

Amadeo foi provavelmente o primeiro pintor modernista português e em parte um dos responsáveis por introduzir a pintura modernista na sociedade provinciana e fechada portuguesa do início do século XX.

As pinturas naturalistas de pintores portugueses como José Malhoa (1855-1933), Henrique Pousão (1859-1884) ou Silva Porto (1850-1893) ainda influenciavam muitos outros pintores daquela época. As pinturas modernistas de Eduardo Viana (1889-1967), Santa-Rita Pintor (1889-1918) ou Almada Negreiros (1893-1970) não foram bem recebidas pela sociedade conservadora portuguesa.

Os artistas modernistas foram sempre uma minoria e não tiveram a possibilidade de desenvolver a sua arte durante a Primeira República ou durante a Ditadura portuguesa (1926-1974).

Parto da viola Bom Ménage 1916 Amadeo de Souza Cardoso

Parto da viola Bom Ménage 1916

O regresso a Portugal: 1914 – 1918

Amadeo voltou a Portugal por causa do início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, após ter passado por Barcelona onde conheceu o fabuloso arquiteto Gaudí. Em Portugal continuou a trabalhar intensamente no atelier que o seu pai, José Emídio, tinha construído para ele, na Casa do Ribeiro em Manhufe. Tornou-se no seu centro criativo.

Durante este período de tempo teve a possibilidade de exibir algumas das suas pinturas, apesar de a sociedade portuguesa não ser aberta, no geral, a novas ideias e a diferentes tendências artísticas. Em 1916, contudo, mais de 30 mil pessoas visitaram a sua exposição no Porto: a grande maioria, porém, não aceitou ou entendeu as suas pinturas. Foi provavelmente a primeira grande exposição de pinturas modernistas em Portugal. Em Lisboa também houve uma exposição sua mas a maioria dos jornais portugueses simplesmente ignorou Amadeo e o seu trabalho foi visto como bizarro e extravagante.

Amadeo: o marido

Durante o seu tempo em Portugal, Amadeo casou-se, em 1914, com Lucie Pecetto, que conhecera em Paris anos antes. Tinham tido uma filha juntos. Não se sabe o que aconteceu à criança. É possível que a criança tenha sido entregue a uma ama ou a outra família. Amadeo basicamente casou com Lucie para que pudesse apresentá-la aos seus pais católicos conservadores.

Cash Register 1917 Amadeo de Souza Cardoso

Cash Register 1917

A pandemia de gripe pneumónica

No final do século XIX e no início do século XX, Portugal foi seriamente afetado por várias epidemias. As más condições sanitárias, a falta de esgotos em muitas casas e a inexistência de um sistema de saúde público ajudou a propagar doenças como a varíola, o tifo, a málaria ou a difteria que mataram milhares de pessoas de todas as origens sociais.

Em 1918, com o final da Primeira Guerra Mundial, a pandemia de gripe espalhou-se rapidamente por todo o mundo e afetou Portugal, sobretudo as cidades de Lisboa e do Porto. É difícil definir o número exato de vítimas devido à falta de registos rigorosos mas muitos historiadores acreditam que entre 30 a 50 milhões de pessoas tenham morrido (muitas mais que durante a Primeira Guerra Mundial, a qual terá morto aproximadamente 9 milhões de pessoas).

Em Portugal, 60 a 150 mil pessoas terão morrido vitimadas pela gripe pneumónica. Entre as vítimas desta horrível tragédia encontravam-se Amadeo de Souza Cardoso e alguns dos seus irmãos e irmãs. O grande pintor modernista morreu em Espinho, na casa de veraneio da sua família. Em Paris, Modigliani sofreu bastante quando soube da sua morte tal como a sua esposa Lucie e o resto da sua família.

Entrada 1917 Amadeo de Souza Cardoso

Entrada 1917

As pinturas de Amadeo atualmente: onde admirá-las em Portugal

Após a morte do seu marido, Lucie Cardoso, regressou a Paris onde viveu e faleceu em 1989. Regressou algumas vezes a Manhufe. Sabe-se que a família de Amadeo lhe deu uma pensão mensal. Lucie tentou promover o trabalho de Amadeo e algumas das suas pinturas foram novamente exibidas em Paris, em Chicago, em Lisboa (1952) e mais tarde no Porto (1956).

Atualmente, os quadros de Amadeo estão presentes em museus de todo o mundo tais como o Art Institute de Chicago (“O salto do coelho”) ou integram a coleção de colecionadores privados.

O salto de coelho 1911 Amadeo de Souza Cardoso

O salto de coelho 1911

Lucie também doou algumas pinturas ao Museu Municipal de Amarante , onde poderá ver muitas das suas pinturas, desenhos e caricaturas. Recomendo vivamente uma visita a Amarante, uma bela e charmosa cidade à beira do rio Tâmega.

Por outro lado, se visitar Lisboa vá ao Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, uma Fundação de arte que adquiriu uma grande quantidade dos trabalhos de Amadeo no final do século XX . O resto das suas obras estão espalhadas em diferentes museus nacionais por todo o país.

O ano do centenário da morte de Amadeo (2018) foi largamente ignorado em Portugal: e honestamente não consigo explicar porquê. O que sei é que Amadeo de Souza Cardoso foi um pintor magnífico que produziu mais de 100 obras de arte (entre desenhos, caricaturas e pinturas) e que deixou este mundo muito cedo!

Espero que algum dia alcance o reconhecimento que realmente merece!


Nuno Alegria

Nuno Alegria

Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, pós-graduado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras de Coimbra e em Tour Guiding pelo Instituto de Novas Profissões (INP). Guia-Intérprete oficial, fluente em inglês, francês e espanhol, trabalha para a Parques de Sintra e para diversas agências de viagens realizando circuitos turísticos culturais por museus e monumentos de todo o país. Responsável por desenvolver e gerir o projeto da Secrets of Portugal (www.secrets-of-portugal.com), empresa que organiza passeios culturais e históricos a pé por Lisboa e por Sintra.

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4 Comentários. Leave new

  • Tudo o que é ou está relacionado com Arte é ignorado ou silenciado em Portugal. É muito dificil romper o muro da ignorância e do preconceito. O Modernismo não foi um movimento aceite pela conservadora sociedade portuguesa dos finais do século IX, inicio do século XX. Como a Arte Conseptual também não está a ter tempos fáceis, nos dias de hoje. A imprensa ignorou a Arte de Amadeu de Sousa Cardoso, apelidandoa de ( bizarra e extravagante), a imprensa de hoje não tem melhor compurtamento, para com os artistas plásticos contemporâneos. Temos que continuar a lutar contra o conservadorismo romantico, que domina uma grande frânja da nossa sociedade, estrangulando o seu natural desenvolvimento.
    José Coêlho
    Mestre em escultura pela Univ.Bel. Artes de Lisboa. 05.11.20

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  • Foi muito bom conhecer a breve história desse maravilhoso artista modernista.

    Responder
  • Lamentavelmente a divulgação das obras de Amadeu de Sousa Cardoso está restringida pelos direitos de autor, a reprodução da obra carece de autorização da SPA. Tive o privilégio de há 2 ou 3 anos atrás , visitar a exposição de Amadeu, de Almada Negreiros e outros em Amarante. Claro que a sala da Fundação Gulbenkian com a obra de Amadeu de Sousa Cardoso era um lugar mágico onde o tempo parava… pela beleza de cada pintura.

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    21/07/2021 01:38

    Best view i have ever seen !

    Responder

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