José Malhoa – o pintor dos costumes portugueses!

A vida e a obra de José Malhoa – o pintor dos costumes portugueses!


 

José Malhoa 1

Museu José Malhoa

José Malhoa

José Malhoa nasceu em 1855, nas Caldas da Rainha, e faleceu em 1933, em Figueiró dos Vinhos. Originário de uma família de lavradores, frequentou a Academia de Belas Artes de Lisboa, entre 1867 e 1875, onde foi aluno de outros pintores e escultores de renome nacional como Miguel Ângelo Lupi (1826-1883), Vítor Bastos (1832-1894), Tomás da Anunciação (1818-1879) ou José Simões de Almeida (1844-1926).

Malhoa dividiu a sua vida entre Lisboa – onde residia numa casa que fora encomendada ao arquiteto Norte Júnior (1878-1962) e que atualmente é o Museu Dr. Anastácio Gonçalves – e Figueiró dos Vinhos, onde se situava a sua residência, mais conhecida como o Casulo de Malhoa. Aqui passou uma parte significativa do seu tempo disfrutando do ar puro da natureza e encontrando inúmeros motivos para os seus quadros.

José Malhoa Paisagem de Figueiró (1915)
Paisagem de Figueiró (1915)

Portugal – os contrastes da época

Herdeiro da tradição romântica e vivendo num mundo cada vez mais marcado pelo ritmo alucinante da industrialização e do progresso técnico, Malhoa retratou o Portugal rural marcado pela vida simples e genuína das pessoas do campo e que em nada se parecia com a vida agitada da capital onde os primeiros automóveis, os elétricos, os funiculares e elevadores em ferro ou o animatógrafo do Rossio alteravam rapidamente os hábitos dos seus habitantes.

Em Lisboa, a população aumentava de dia para dia e surgiam bairros operários onde homens, mulheres e crianças descalças se amontoavam em casas sem as mínimas condições de higiene. Os surtos epidémicos de tifo, febre amarela, cólera ou tuberculose eram frequentes.

Portugal permanecia um país maioritariamente rural: ao mesmo tempo que o primeiro-ministro Fontes Pereira de Melo (1819-1887) intensificava a sua política de melhoramento e fomento de obras públicas – através da construção de pontes, estradas, vias férreas e ligações teleféricas – a maioria da população ainda utilizava o burro ou o cavalo para transportar os produtos agrícolas e comercializá-los nos mercados locais.

José Malhoa As padeiras, mercado em Figueiró (1898)

José Malhoa As padeiras, mercado em Figueiró (1898)

José Malhoa – o retrato das tradições populares

No entanto, sendo uma pessoa naturalmente otimista, alegre e bem-disposta, José Malhoa focou-se em retratar a doçura e o encanto dos momentos campestres. Na sua pintura de cores fortes e de luz intensa é notório um verdadeiro apego à terra e às tradições populares. Optou por não criticar o atraso social, cultural e económico de Portugal em relação ao resto da Europa, mas sim por glorificar o sentimentalismo cristão e as crenças e superstições locais de uma população analfabeta ou muito pouco instruída.

 

José Malhoa Promessas (1933)

 Promessas (1933)

O Naturalismo: uma nova corrente estética

O Naturalismo foi um movimento estético e artístico que surgiu em França a partir de 1830, com a criação da Escola de Barbizon e através das pinturas de Théodore Rousseau (1812-1867), de Jean-François Millet (1814-1875) ou de Gustave Courbet (1819-1877).

Normalmente, os pintores faziam esboços ao ar livre e terminavam as suas pinturas no atelier. Os motivos representados incluíam paisagens naturais, cenas da vida rural ou retratos de personagens típicas do campo.

José Malhoa Embaraçar cebolas (1896)

Embaraçar cebolas (1896)

Os pintores, influenciados pelas condições atmosféricas do momento, esforçavam-se por captar os efeitos da luz natural sobre os objetos e os elementos da natureza. Tentavam captar a realidade imediata e cultivavam a sensação visual, o que conferia mais originalidade e espontaneidade à obra produzida.

Refira-se que, ao longo do século XIX, se tinham diversificado os motivos pintados, desde cenas mitológicas, religiosas e históricas até simples paisagens vulgares. Igrejas, catedrais, cenas de batalhas históricas ou medas de palha: tudo era passível de ser pintado.

José Malhoa Milho ao sol (1927)

Milho ao sol (1927)

Naturalismo em Portugal

Em Portugal, a estética naturalista e realista da Escola de Barbizon foi introduzida pelos pintores Silva Porto (1850-1893) e Marques de Oliveira (1853-1927), e durou até aos anos 20 do século XX. Estes dois notáveis pintores entraram em contacto com este novo movimento artístico durante a sua estadia em França, em 1873, como pensionistas do Estado português. Foi em Paris que Silva Porto e Marques de Oliveira estudaram Pintura de Paisagem e Pintura Histórica, respetivamente.

José Malhoa À sombra da parreira (1926)

À sombra da parreira (1926)

O Naturalismo acabou por influenciar outros artistas como João Vaz (1859-1931), Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e o próprio José Malhoa que, em 1880, ajudou a fundar o Grupo do Leão, do qual faziam parte os artistas portugueses atrás mencionados, juntamente com vários outros pintores, poetas e escritores como Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), Cesário Verde (1885-1886) ou Fialho de Almeida (1857-1911).

Esta tertúlia de jovens artistas – que se reunia na cervejaria lisboeta Leão d’Ouro – acabou por convencer Malhoa a preferir a pintura ao ar livre e a procurar no campo, ao redor da sua casa em Figueiró dos Vinhos, a autenticidade que faltava ao meio urbano industrializado e materialista.

 

O Grupo do Leão (1885), Columbano Bordalo Pinheiro

O Grupo do Leão (1885), Columbano Bordalo Pinheiro

Malhoa e a cidade de Lisboa

Apesar da sua paixão pelo meio rural, José Malhoa também passou uma larga temporada da sua vida em Lisboa onde retratou magistralmente o mundo suburbano do fado, um género musical que naquela época ainda estava muito longe de ser considerado Património Imaterial da Humanidade. De facto, o fado – apesar de ser apreciado por uma parte das elites portuguesas, em particular pelo rei D. Carlos I (1863-1908) – era ainda associado ao submundo do crime, da vida boémia, da embriaguez e da prostituição.

 

O Fado (1910)

O Fado (1910)

Na sua obra, O Fado, de 1910, em cima exposta, o pintor apresenta, à direita, o “fadista” Amâncio – personagem de caráter violento e marginal – a tocar a célebre guitarra portuguesa e a cantar o fado, sendo acompanhado por Adelaide da “Facada”, que parece ser representada como uma prostituta.

A vida na capital vai também permitir-lhe estabelecer diversos contactos com famílias aristocratas abastadas e burgueses endinheirados que acabam por lhe encomendar diversas obras de arte.

Retrato da Menina Laura Sauvinet (1888) José Malhoa

Retrato da Menina Laura Sauvinet (1888)

À Beira-Mar - Praia das Maçãs (1926)

À Beira-Mar – Praia das Maçãs (1926)

Além disso, Malhoa participou na decoração interior do Palácio da Ajuda (1890), da Câmara Municipal de Lisboa (1899) e do Museu Militar (1907-1908) e pintou retratos de proeminentes políticos portugueses ou de membros da família real, como o primeiro-ministro José Luciano de Castro (1834-1914) e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe (morto no atentado de 1 de fevereiro de 1908, juntamente com o seu pai, D. Carlos I).

José Malhoa Retrato de José Luciano de Castro (1899)

Retrato de José Luciano de Castro (1899)

Retrato do príncipe D. Luís Filipe (1908)

Retrato do príncipe D. Luís Filipe (1908)

O reconhecimento nacional e internacional

A obra de José Malhoa foi reconhecida e apreciada pelo público português e estrangeiro. Ao longo da sua vida realizou diversas exposições em Paris (1900), em Madrid (1901), no Rio de Janeiro (1906), em Barcelona (1910) e no Porto (1912) e foi condecorado por inúmeras vezes.

Malhoa retratou o imaginário mental rural e urbano da Monarquia e da Primeira República Portuguesa e, não expressando nas suas obras convicções ideológicas ou políticas, foi admirado pelos apoiantes dos dois regimes e teve inúmeros discípulos e seguidores.

Ao escolher como motivos os temas rurais e as festas populares religiosas ou pagãs, Malhoa permitiu que o povo português se identificasse com as suas obras. E isso fez dele um dos mais populares pintores portugueses de todos os tempos, digno da nossa mais profunda admiração!

 

Os bêbados ou festejando o São Martinho (1907)

Os bêbados ou festejando o São Martinho (1907)


Nuno Alegria

Nuno Alegria

Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, pós-graduado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras de Coimbra e em Tour Guiding pelo Instituto de Novas Profissões (INP). Guia-Intérprete oficial, fluente em inglês, francês e espanhol, trabalha para a Parques de Sintra e para diversas agências de viagens realizando circuitos turísticos culturais por museus e monumentos de todo o país. Responsável por desenvolver e gerir o projeto da Secrets of Portugal (www.secrets-of-portugal.com), empresa que organiza passeios culturais e históricos a pé por Lisboa e por Sintra.

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