O que tem a arte a ver com a política? Gustave Courbet e a Comuna de Paris

O pintor Gustave Courbet, figura central do realismo, é conhecido pelas suas pinturas em que revela a verdadeira vida de camponeses e trabalhadores comuns, numa época em que os retratos mais aceites eram os de heróis mitológicos ou cenas religiosas.

Embora retratando o que viu com intenso realismo, politicamente falando Courbet era um idealista e um visionário.

Uma das suas atividades políticas mais importantes tem a ver com a Comuna de Paris.

Conheça este artista que transgrediu as normas da sua época.

Courbet The Desperate Man (Self-Portrait)Imagem de capa – Gustave Courbet – O Desesperado, 1877.


Gustave Courbet

Gustave Courbet nasceu em França em 1819.

Começou a estudar arte muito cedo e, a partir do final da década de 1840, tornou-se um artista respeitado e admirado.

A sua arte era um desafio, já que a sociedade conservadora não queria ver retratos de pessoas comuns. Mas isso não importava.

O seu plano era um só: pintar apenas o que via, registar o que estava à sua frente.

Gustave Courbet The Homecoming, c.1854. Private Collection.

Gustave Courbet O Regresso, c.1854. Coleção Privada, wikiart

A situação política em França

Durante o período mais intenso de produção de Courbet, a situação política em França não estava muito calma.

Em 1870, sob o comando de Napoleão III (sobrinho de Napoleão Bonaparte), a França entrou em guerra contra a Prússia. O reino prussiano então aliou-se aos outros estados alemães e invadiu a França, que enfrentou várias derrotas, até que Napoleão se rendeu.

Um governo republicano foi estabelecido no mesmo ano. Extremamente conservador, a sede deste governo mudou-se de Paris para Versalhes.

Como reação, em 1871, surgiu a Comuna de Paris, movimento social que exigia a reforma da economia, a partir de uma forma de governo que era, como o nome sugere, comunal.

Mas o que Gustave Courbet tem a ver com tudo isso?

Desde o início do reinado de Napoleão III, em 1851, Courbet já era considerado um artista que transgredia as normas.

A sua  pintura foi considerada uma afronta, pois ele não apenas usou pessoas comuns como tema, mas também retratou as falhas da elite, a sua corrupção e sua moralidade distorcida.

Com a derrota do imperador, Courbet desempenhou um papel significativo na vida política de Paris. Em 1871, ele escreveu numa carta à família:

Estou, graças ao povo de Paris, com a política até ao pescoço […] Paris é um verdadeiro paraíso!

Sem polícia, sem disparates, sem acusações de qualquer tipo, não importa o que aconteça, tudo em Paris funciona como um relógio, oh, se pudesse ficar assim para sempre.

Ele desempenhou muitas funções como membro da Comuna, foi representante da prefeitura e representante do Ministério da Educação Pública. Courbet disse que Paris era um “lindo sonho”.

Gustave Courbet Mulheres Peneirando Trigo

Mulheres Peneirando Trigo

Este lindo sonho foi baseado nas medidas que os communards implementaram: as manufaturas foram transferidas para cooperativas populares, edifícios vagos foram requisitados para habitação e a proposta de que os altos funcionários do governo recebessem salários iguais aos de um trabalhador comum.

Além disso, pretendiam iniciar um programa de educação política para que o povo se pudesse autogovernar.

Gustave Courbet também formou a Federação dos Artistas, cujo principal objetivo era declarar um manifesto que clamava pela liberdade de expressão e igualdade, bem como pelo fim da interferência do governo nas artes. Foi um projeto audacioso.

O fim do sonho

Infelizmente, o sonho não durou muito.

Em maio do mesmo ano, o exército francês invadiu Paris. A cidade foi bombardeada, várias áreas foram queimadas. Milhares de parisienses foram mortos ou presos.

Courbet, é claro, estava entre eles. Ele foi preso, passou seis meses na prisão. Quando saiu, não tinha mais nada. A sua casa foi confiscada. O pintor não tinha dinheiro, não tinha casa e viu apenas um pesadelo terrível.

Incapaz de viver em paz em França, correndo o risco de ser novamente preso, o pintor realista foi morar na Suíça, em exílio voluntário. Aí permaneceu até à sua morte em 1877. Um final realista para o que foi um lindo sonho.

Swiss Landscape with Flowering Apple Tree

Swiss Landscape with Flowering Apple Tree, 1876



Rute-Ferreira

Rute Ferreira

Sou professora de Arte, com formação em Teatro, História da Arte e Museologia. Também sou especialista em Educação à Distância e atuo na educação básica. Escrevo regularmente no blog do Citaliarestauro.com e na Dailyartmagazine.com.  Acredito firmemente que a história da arte é a verdadeira história da humanidade.

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