Museu Nacional dos Coches | uma visita guiada

O Museu Nacional dos Coches é, na minha opinião, um dos melhores museus de Lisboa. Localizado no bairro de Belém, o novo Museu dos Coches foi projetado pelo arquiteto brasileiro, Paulo Mendes da Rocha, e substituiu o antigo Museu Nacional dos Coches que estava instalado no picadeiro do Palácio de Belém.

 

Museo Nacional dos Coches 1

Museu Nacional dos Coches | A exposição

A coleção de veículos de tração animal, liteiras, berlindas, cadeirinhas, carruagens de passeio (também conhecidas como cabriolets) e outros veículos do século XVII ao século XX é simplesmente soberba!

Muitos destes veículos foram usados pela última família real portuguesa, os Bragança, assim como por membros do clero ou por famílias ricas portuguesas. Foram frequentemente utilizados durante os casamentos reais, batismos ou outras cerimónias como procissões religiosas.

Além disso, foram ainda usados pela nobreza nos seus passeios pelos jardins dos seus palácios e nas suas deslocações para as suas casas de campo.

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Em muitas carruagens do século XVIII poderá ver painéis laterais decorados com motivos florais e vegetais ou dourados com a representação de figuras femininas, de crianças seminuas (um símbolo de inocência e pureza) ou dos 12 signos do Zodíaco.

A informação está disponível em diversos idiomas nos painéis digitais que mostram imagens detalhadas do interior das carruagens. Conheço muitos museus em Portugal e posso afirmar que este é provavelmente um dos mais modernos.

Por isso esteja preparado para passar pelo menos uma hora (ou mais) neste fabuloso museu!

Porque é que Lisboa tem uma excelente coleção de carruagens?

Antes de continuar gostaria de explicar porque razão o Museu Nacional dos Coches tem provavelmente uma das melhores coleções europeias de veículos de tração animal. A meu ver tal deve-se a três motivos principais:

  • Portugal teve muitas rainhas estrangeiras pertencentes, por exemplo, à família austríaca de Habsburgo: quando chegavam por barco a Lisboa, para casar com os reis portugueses, traziam uma comitiva composta por diversas carruagens e outros veículos de tração animal.
  • O país não é invadido por nenhum exército estrangeiro desde 1811, ano em que os soldados franceses de Napoleão foram finalmente derrotados pelo exército português com o apoio das tropas britânicas.

Museu Nacional dos coches horse carriages

  • Não houve bombardeamentos em Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial pois o país manteve-se neutro. O ditador, António Oliveira Salazar, juntamente com os seus diplomatas, foi capaz de manter a neutralidade portuguesa fazendo concessões a ambas as partes do conflito. Por exemplo, o governo português vendeu volfrâmio, um metal usado para produzir armamento, aos britânicos e aos alemães e permitiu também que os norte-americanos estabelecessem uma base naval na ilha Terceira, nos Açores. Refira-se que em França, por exemplo, a grande coleção de carruagens do tempo do rei Luís XIV foi em parte destruída pelos bombardeamentos alemães.

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Como chegar ao Museu Nacional dos Coches

Pode chegar facilmente ao Museu Nacional dos Coches em apenas 30 minutos de elétrico (o elétrico 15 parte da Praça do Comércio) ou em táxi (o custo do táxi desde o centro histórico é cerca de 8 euros). O Museu abre às 10h e encerra à segunda-feira e em alguns feriados (consulte o website www.museudoscoches.gov.pt) e o bilhete custa  8 euros por pessoa para visitar a exposição permanente. No entanto, um bilhete combinado custa 10 euros por pessoa: inclui a visita ao novo Museu dos Coches e ao antigo Museu – algumas carruagens ainda estão no antigo Museu que fica localizado muito perto do atual. Poderá comprar o bilhete diretamente na bilheteira, mas não através da internet.

Quando ir?

Costumo realizar muitos tours em Belém e recomendo-lhe que vá logo pela manhã. Belém é um dos meus bairros preferidos: há muito que ver e poderá passar literalmente todo o dia visitando museus e monumentos como o Museu da Marinha, o Museu de Arqueologia ou a Igreja e o Claustro do Mosteiro dos Jerónimos, situados a apenas 10 minutos a pé do Museu Nacional dos Coches .


Museu Nacional dos Coches | a coleção

O coche mais antigo: a carruagem de Filipe II

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O veículo de tração animal mais antigo exibido no museu data do século XVII: o coche de Filipe II, o monarca Habsburgo que foi rei de Portugal e de Espanha (com o título de Filipe III), simultaneamente. O rei Filipe II de Portugal chegou a Lisboa em 1619 neste coche proveniente de Madrid, onde a corte estava sediada, depois de uma viagem de mais de 60 dias através das antigas estradas romanas que naquele tempo ainda eram utilizadas. A carruagem era puxada por 6 cavalos, mas não havia cocheiro: um homem a cavalo seguia ao lado e controlava os restantes cavalos.

A atração do Museu: os coches do rei D. João V!

Uma das atrações deste espetacular Museu são certamente as três carruagens de madeira esculpida dourada que fizeram parte de uma embaixada impressionante que foi enviada a Roma, ao Papa Clemente XI, por ordem do rei D. João V, em 1716. O objetivo principal de D. João V – um rei muito excêntrico que estava fascinado com a opulência do Palácio de Versalhes – era obter mais privilégios para a Igreja Católica portuguesa. A embaixada foi liderada pelo embaixador D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses, o Marquês de Fontes, cujo retrato está exposto mesmo ao lado das três carruagens.

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O rei D. João V reinou em Portugal entre 1707 e 1750 e durante este tempo uma grande quantidade de ouro, pedras preciosas e diamantes chegou massivamente do Brasil, uma das principais colónias portuguesas. Com esta afluência de riqueza, o rei conseguiu financiar a construção de diversos monumentos como o Aqueduto de Lisboa e do Palácio e Convento de Mafra. Estes 3 coches triunfais foram produzidos em Roma, 4 anos antes, por artesãos italianos em parte porque D. João V apreciava muito a arte italiana – durante o seu reinado o rei encomendou várias outras obras de arte a escultores italianos.

Após o evento os coches regressaram a Portugal de barco onde o rei pôde admirá-los. A embaixada era composta no total por mais de 300 carruagens: infelizmente a maioria desapareceu ou atualmente integra a coleção de outros museus.

As carruagens do século XIX

Depois de admirar as carruagens dos séculos XVII e XVIII que foram usadas pelos nossos monarcas, poderá também ver os Phaetons, Landaus ou Broughams que eram utilizados no século XIX por muitas famílias ricas portuguesas para deslocações dentro das cidades ou para as suas viagens ao campo por lazer ou para caçar. A decoração destes veículos de tração animal é mais sóbria e menos colorida. Se olhar com cuidado poderá ver que o logotipo do produtor está gravado nas rodas.

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A mala-posta

Na segunda metade do século XIX o rei português D. Luís I ordenou que o governo comprasse um conjunto de carruagens em Bruxelas para transportar o correio, os passageiros e as suas bagagens entre Lisboa e Coimbra, e mais tarde, entre Lisboa e o Porto.

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A viagem demorava mais de 24 horas e, ao longo do percurso, havia muitos pontos de paragem para mudar os cavalos e para que os passageiros pudessem descansar e comer algo. Nalgumas destas carruagens as bagagens dos passageiros eram guardadas ou na parte de cima ou havia um compartimento por debaixo do assento do cocheiro que era usado para armazená-las juntamente com o correio.

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O Landau do rei D. Carlos I

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Outra das atrações deste museu é o Landau onde o rei D. Carlos I e o príncipe Luís Filipe (o herdeiro do trono) foram assassinados por 3 homens, a 1 de fevereiro de 1908, quando regressavam de uma estadia no Palácio de Vila Viçosa. Este assassinato fez provavelmente parte de uma conspiração liderada pelo Partido Republicano e pela Carbonária (uma espécie de organização terrorista). Atualmente, pode ver-se ainda os buracos das balas que foram deixados no lado esquerdo da carruagem.

Dois anos depois, a 5 de outubro de 1910, rebentou a revolução, o regime monárquico foi abolido e foi instaurada a Primeira República portuguesa.

Outras coleções

Além da coleção de veículos de tração animal não se esqueça de admirar os trompetes, os estandartes reais, os tambores de guerra, os acessórios de cavalaria, os uniformes, os chicotes e as botas dos cocheiros, arqueiros e criados e não perca também a coleção de retratos reais que está exposta no segundo andar do Museu.

O primeiro automóvel!

Finalmente, este fantástico Museu tem também algo único: o primeiro automóvel que circulou pelas ruas de Lisboa, em 1895! É formidável! O veículo pertenceu ao Conde de Avilez, Jorge Avilez de Sousa Feio, e foi produzido em França pela empresa Panhard & Levassor.

Que grande maneira de terminar a sua visita!

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Nuno Alegria

Nuno Alegria

Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, pós-graduado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras de Coimbra e em Tour Guiding pelo Instituto de Novas Profissões (INP). Guia-Intérprete oficial, fluente em inglês, francês e espanhol, trabalha para a Parques de Sintra e para diversas agências de viagens realizando circuitos turísticos culturais por museus e monumentos de todo o país. Responsável por desenvolver e gerir o projeto da Secrets of Portugal (www.secrets-of-portugal.com), empresa que organiza passeios culturais e históricos a pé por Lisboa e por Sintra.

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