A Igreja e o Mosteiro de São Vicente: um fantástico monumento em estilo renascentista italiano no coração de Lisboa!

Neste artigo conheça a Igreja e Mosteiro de São Vicente em Lisboa, Portugal. Uma visita guiada a um belíssimo monumento que abriga os túmulos da última família real portuguesa, os Bragança!


Mosteiro de São Vicente – O edifício original

Após a conquista de Lisboa aos muçulmanos, em 1147, o primeiro rei português, D. Afonso Henriques, fundou um mosteiro consagrado a São Vicente.

O local escolhido localizava-se fora dos muros defensivos da cidade e perto do sítio onde os cruzados flamengos e alemães tinham instalado o seu acampamento militar durante o cerco de Lisboa. Daí provém o nome: Mosteiro de São Vicente de Fora. Os cruzados estavam a caminho da Terra Santa onde lutariam contra os muçulmanos, durante a Segunda Cruzada (1147-1150), mas pararam em Lisboa e ajudaram o primeiro rei de Portugal a reconquistar a cidade.

O Mosteiro foi ocupado pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, uma importante ordem religiosa que recebeu várias doações de outros reis portugueses como D. Sancho I ou D. Afonso II. Este grupo de monges ocupou o Mosteiro de São Vicente até 1834, altura em que as ordens religiosas foram suprimidas e o seu património foi confiscado pelo governo liberal português.

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São Vicente: o santo padroeiro de Lisboa

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De acordo com a lenda, São Vicente nasceu em Saragoça, em Espanha, durante o tempo do Império romano. Vicente recusou adorar os deuses pagãos e como resultado foi torturado pelos romanos durante as perseguições contra as comunidades cristãs ordenadas pelo Imperador Diocleciano (284-305 d.c.).

O seu corpo foi atirado ao mar e os seus restos mortais foram salvos miraculosamente e transportados num barco que, protegido por dois corvos, chegou a Lisboa no final do século XII. São Vicente tornou-se o santo padroeiro da família real portuguesa e da cidade de Lisboa.

No decorrer dos séculos foi também adorado por pescadores e por todos aqueles que estavam envolvidos em atividades marítimas.

Durante a Idade Média as suas relíquias foram inicialmente preservadas no Mosteiro primitivo, o qual se tornou num importante centro de peregrinação.

O Mosteiro de São Vicente

A construção da atual Igreja e do atual Mosteiro de São Vicente foi ordenada pelo rei Habsburgo D. Filipe I, em 1582, o qual era simultaneamente rei de Portugal e de Espanha. O novo edifício foi consagrado a São Vicente e a São Sebastião.

Filipe I (1527-1598) era filho do Imperador do Sacro-Império Romano Germânico, Carlos V (1500-1558), e neto do rei português D. Manuel I (1469-1521).

Tornou-se rei de Portugal, em 1581, e foi aclamado no Convento de Cristo em Tomar. Filipe I viveu durante dois anos em Lisboa e tentou respeitar os privilégios e a autonomia da nobreza portuguesa que o tinha apoiado.

Entre 1581 e 1640 os reinos de Portugal e de Espanha foram unificados e Madrid tornou-se a capital de um Império colonial gigantesco, o qual incluía a América Latina espanhola, o Brasil português, as colónias portuguesas em África e no Oriente e as Filipinas espanholas. Foi um dos maiores impérios coloniais da História da Humanidade, sustentado pelo comércio de ouro, escravos, prata e especiarias.

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A construção do Mosteiro de São Vicente

A construção deste novo edifício religioso começou em 1583 e apenas terminou no início do século XVIII durante o reinado do rei português D. João V (1689-1750).

Houve vários arquitetos envolvidos: Juan de Herrera (1530-1597), responsável por projetar uma grande parte do Mosteiro do Escorial (onde o rei Filipe I está atualmente sepultado), Baltazar Álvares (1560-1630) ou Filippo Terzi (1520-1597) os quais seguiram o estilo arquitetónico clássico defendido por outros arquitetos como Vitrúvio (um arquiteto romano que viveu no I século a.c.) ou Sebastiano Serlio (1475-1554).

A pedra utilizada para construir este fantástico edifício foi extraída de São Sebastião da Pedreira, um local que naquele tempo estava localizado nos arredores de Lisboa.

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A Igreja

A Igreja de São Vicente foi construída entre 1583 e 1629 e fortemente influenciada pelo estilo maneirista italiano. Foi uma das mais impressionantes igrejas lisboetas daquele tempo. A fachada é sóbria e austera: pode ver-se claramente que alguns dos princípios arquitetónicos como a clareza das formas, a simetria e o equilíbrio, próprios dos estilos renascentistas e maneiristas, estão presentes em todo o edifício.

Ao centro, entre as duas torres sineiras, vemos as estátuas de São Vicente, Santo Agostinho e São Sebastião. Há 4 outras estátuas em ambas as torres: Santo António, São Domingos, São Bruno e São Norberto, esculpidas no início do século XVIII pelo escultor italiano Bellini.

A influência da arte italiana em Portugal durante o reinado do rei D. João V, entre 1706 e 1750, foi notória: o rei estava fascinado pela cultura italiana e encomendou muitas obras de arte assim como carruagens luxuosas a diversos artistas italianos.

A Igreja foi construída em forma de cruz grega com uma nave única e várias capelas laterais, algumas das quais foram decoradas com glamorosas colunas de mármore e altares em talha dourada como a capela consagrada ao Sagrado Coração de Jesus Cristo ou a capela de Nossa Senhora da Conceição.

O baldaquino do altar-mor, feito na oficina do escultor português Joaquim Machado de Castro (1731-1822), foi inspirado no baldaquino da Basílica de São Pedro em Roma que foi desenhado pelo genial Gian Lorenzo Bernini (1634).

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A renovação do Mosteiro de São Vicente pelo rei D. João V

No século XVIII o Mosteiro de São Vicente sofreu uma profunda renovação devido à chegada massiva de diamantes e ouro do Brasil a Lisboa. Em 1720, o arquiteto alemão Ludwig, conhecido como Ludovice em Portugal (1673-1752), foi encarregado por D. João V de alargar e embelezar este edifício.

Na chamada “Portaria” poderá admirar vários painéis de azulejos com imagens de reis portugueses como D. Afonso Henriques, conquistando as cidades de Lisboa e de Santarém aos muçulmanos, em 1147; D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir em 1578 (uma tragédia que causou uma crise de sucessão gravíssima); e D. João IV, D. Pedro II e D. João V, três reis pertencentes à última família real portuguesa, os Bragança.

Os painéis de azulejos foram feitos por Manuel dos Santos (um dos melhores artistas da época) enquanto as pinturas do teto foram pintadas pelo artista italiano Vincenzo Baccarelli (1710).

A sacristia

São Vicente Sacristia

 

A sacristia é, a meu ver, uma das atrações deste Mosteiro!

Localiza-se entre os dois claustros e não está ligada ao corpo da Igreja. Foi provavelmente projetada pelo arquiteto português Luís Nunes Tinoco (1642-1719) durante o reinado do rei D. Pedro II (1683-1706).

A influência da decoração de gosto italiana está novamente presente nas paredes revestidas a mármore multicolor nas quais estão representados ramos de árvores e flores.

 

Durante o reinado de D. Pedro II e de D. João V o uso de pedras multicolores na decoração de muitas igrejas portuguesas era um sinal de opulência e de luxo.

O medalhão em mármore com o busto em relevo de D. João V por cima da porta de entrada – o qual foi possivelmente executado pelo escultor francês Claude Laprade (1687-1740) – simboliza a presença do mecenato real no Mosteiro de São Vicente no início do século XVIII.

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As arcas de madeira exótica brasileira (jacarandá) contrastam perfeitamente com a profusa decoração floral e vegetal das paredes de mármore.

Os painéis de azulejos: uma coleção preciosa!

O Mosteiro de São Vicente tem a melhor coleção de azulejos de estilo barroco.

São aproximadamente 100 mil azulejos azuis-cobalto e brancos que revestem as paredes dos claustros e das escadarias, todos eles produzidos nas oficinas de Lisboa entre o final do século XVII e a primeira metade do século XVIII!

Alguns dos melhores artistas portugueses participaram na produção destes incríveis painéis de azulejo: Manuel dos Santos, o Mestre PMP (não se conhece ao certo qual era o nome do artista mas sabe-se que assinava as suas obras com este nome) e Valentim de Almeida (1692-1779).

O uso do azul-cobalto foi provavelmente motivado pela porcelana chinesa e pela faiança holandesa de Delft que naquele tempo chegavam a Portugal e eram consideradas como objetos de luxo por muitas famílias nobres.

Estes painéis figurativos azuis e brancos substituíram os antigos painéis verdes, azuis, brancos e amarelos que copiavam os padrões das tapeçarias orientais (indianas e chinesas) e que tinham dominado as preferências das elites no século anterior.

O azulejo em Portugal

É possível que a origem da palavra portuguesa azulejo provenha da palavra árabe – al zuleycha – que significa pequena pedra polida.

Originalmente, os azulejos eram pequenas peças de cerâmica vidrada multicolor que eram usadas na decoração das paredes exteriores das mesquitas ajudando assim a refletir a luz solar.

A produção de azulejos foi introduzida em Portugal durante o período da colonização islâmica do país, entre aproximadamente 711 e 1249.

Após a conquista da região do Algarve pelo rei português D. Afonso III, em 1249, e a consequente dominação cristã de todo o reino, os azulejos continuaram a ser produzidos e usados para decorar o interior de edifícios religiosos ou de palácios reais e nobres.

Os painéis de azulejos podiam ser facilmente limpos, eram permanentes e duráveis e não havia a necessidade de comprar tapeçarias para pendurar nas paredes.

As oficinas de azulejos pertenciam normalmente a uma família e localizavam-se nas cidades ou perto de rios e riachos devido à necessidade de abundância de água e de solos argilosos.

Estes incríveis painéis de azulejos com emolduramentos monumentais apresentam cenas de caça e mitológicas, cenas bélicas ou galantes, jardins barrocos com fontes e vasos com flores, cidades muralhadas, castelos, pontes fluviais, cenas rurais ou de pesca e chinoiseries (imagens de fauna, flora ou pessoas orientais nas suas atividades diárias).

Muitos destes painéis de azulejos inspiraram-se em alguns desenhos europeus de palácios e jardins barrocos feitos por arquitetos e gravadores como Jean Lepautre (1618-1682).

As fábulas de La Fontaine

No Mosteiro de São Vicente há outra coleção fabulosa e rara de 38 painéis de azulejos com a representação de algumas das famosas fábulas escritas pelo grande escritor françês, Jean de La Fontaine (1621-1695), como «O velho e os seus filhos» ou «O gato, a doninha e o jovem coelho».

Estas fábulas foram escritas com o intuito de moralizar a sociedade francesa.

Os painéis foram produzidos entre 1770 e 1790, segundo o estilo neobarroco, pelo pintor português Francisco Jorge da Costa e costumavam estar localizados no piso térreo do claustro.

O uso de excertos retirados das fábulas de La Fontaine é bastante raro: as imagens expostas inspiraram-se nos desenhos de Jean-Baptiste Oudry (1686-1755), pintor e ilustrador francês. Atualmente, são exibidos no piso superior do claustro.

 

 

O Mosteiro tem também uma enorme importância simbólica pois nele estão guardados os túmulos da última família real portuguesa: os Bragança. A decisão de transformar o Mosteiro num Panteão Real foi tomada pelo rei D. João IV, o responsável pela restauração da Independência de Portugal contra os Habsburgo espanhóis em 1640 e fundador da dinastia real de Bragança. O seu filho, o rei D. Pedro II, colocou a ideia na prática: encomendou a construção do túmulo do seu pai ao arquiteto João Nunes Tinoco (1631-1690).  É o primeiro que se encontra à direita. Conseguirá identificá-lo facilmente pois é uma verdadeira obra-prima da escultura barroca portuguesa! Incialmente, os túmulos reais estavam localizados no altar principal da Igreja.

O rei consorte D. Fernando II, casado com a rainha portuguesa D. Maria II, promoveu uma profunda renovação do Panteão entre 1854 e 1855. Os túmulos reais foram movidos da Igreja para o antigo refeitório do Mosteiro.

Ao longo dos séculos os reinos europeus foram governados por diferentes famílias reais que estavam unidas por matrimónios de conveniência que na prática não eram mais do que alianças políticas, militares e económicas. Desta maneira, atualmente estão sepultadas no mesmo Panteão rainhas e princesas de outras casas reais como a Casa de Habsburgo, Bourbon, Hohenzollern ou Sabóia, as quais vieram para o nosso país para casar com os reis e príncipes de Portugal.

Em 1932, o Panteão foi novamente renovado por ordem de Salazar, o novo chefe de governo da Ditadura Militar.

O arquiteto português Raúl Lino (1879-1974), foi o responsável por desenhar 44 pequenos caixões de mármore assim como outros túmulos que estão localizados no meio da sala. O renovado Panteão de Bragança foi inaugurado em 1933.

A ditadura tentou reabilitar a imagem do rei D. Carlos I e estabelecer uma união política com os apoiantes da antiga Monarquia abolida em 1910. O objectivo do governo português era estabelecer uma união entre conservadores, aristocratas e republicanos contra os movimentos de esquerda (especialmente contra o movimento comunista).

No mesmo ano, em 1932, o último rei português, D. Manuel II, morreu no exílio, em Inglaterra, e Salazar aceitou financiar a construção do seu túmulo.

Ao centro da sala destacam-se quatro túmulos: os túmulos do rei D. Carlos I e do herdeiro do trono, o príncipe Luís Filipe, que foram mortos em conjunto em 1908 por 3 atiradores, apoiados pelo Partido Republicano; e os túmulos do rei D. Manuel II e da rainha D. Amélia, o segundo filho e a esposa do rei D. Carlos I respetivamente, que sobreviveram ao atentado e testemunharam o assassinato do rei e do herdeiro do trono.

A estátua em mármore colocada diante de ambos túmulos intitula-se «Dor» e foi esculpida pelo artista português Francisco Franco (1885-1955). Simboliza a dor sentida pela última rainha de Portugal e esposa de D. Carlos I, Amélia de Orleães, que faleceu muito tempo após o seu marido e os seus filhos, em 1951.

De facto o último túmulo a ser colocado no Panteão foi o túmulo da rainha D. Amélia.

Infelizmente, não poderá visitar o antigo dormitório e a antiga cozinha dos monges mas antes de sair suba as escadas até ao terraço onde poderá ver os sinos da Igreja e desfrutar da vista magnífica sobre Lisboa!

Nuno Alegria

Nuno Alegria

Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, pós-graduado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras de Coimbra e em Tour Guiding pelo Instituto de Novas Profissões (INP). Guia-Intérprete oficial, fluente em inglês, francês e espanhol, trabalha para a Parques de Sintra e para diversas agências de viagens realizando circuitos turísticos culturais por museus e monumentos de todo o país. Responsável por desenvolver e gerir o projeto da Secrets of Portugal (www.secrets-of-portugal.com), empresa que organiza passeios culturais e históricos a pé por Lisboa e por Sintra.

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