Quinta da Regaleira | uma visita guiada a este enigmático e surpreendente monumento!

A Quinta da Regaleira – um dos monumentos mais encantadores de Sintra!

Um enigmático e surpreendente palácio de veraneio rodeado por jardins deslumbrantes!


O fundador da Quinta da Regaleira | Quem foi António Carvalho Monteiro?

António MonteiroO fundador da Quinta e dos Jardins da Regaleira, António Augusto Carvalho Monteiro, nasceu no Brasil, no Rio de Janeiro, em 1848, e faleceu em Sintra em 1920. O seu pai, tal como muitos outros portugueses, emigrou para o Brasil onde conseguiu constituir uma enorme fortuna com o comércio de diamantes e de café.

Carvalho Monteiro licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e herdou a fortuna paterna. Tornou-se num capitalista extremamente rico e excêntrico que viu em Sintra, tal como muitos outros membros das classes ricas, um refúgio à agitação de Lisboa. O ar fresco da montanha, a existência de inúmeras nascentes de água e a possibilidade de caçar veados e javalis na floresta atraiu sempre muitas famílias nobres portuguesas ao longo dos séculos, incluindo é claro a família real.

Carvalho Monteiro era uma pessoa muito eclética com uma vasta cultura, um espírito científico profundo e um enorme interesse por botânica, poesia, belas-artes, zoologia (em particular o estudo dos moluscos), teatro ou mineralogia. Era um bibliófilo, um colecionador e um filantropo.

A Belle Époque: um período de grandes alterações técnicas

Esta espetacular Quinta foi construída durante a época que é normalmente conhecida como Belle Époque que começou em 1890 e terminou em 1914, altura em que se iniciou a Primeira Guerra Mundial.

Foi um período muito fértil em termos de desenvolvimento técnico: os automóveis foram inventados; a luz elétrica foi usada para iluminar os candeeiros de rua de muitas cidades europeias; o cinema popularizou-se; os telefones e os telégrafos começaram a ser amplamente usados; e os elevadores em ferro, elétricos e funiculares apareceram por toda a Europa.

Em 1895, os irmãos Lumière inventaram a câmara cinematográfica e o projetor (tornou-se conhecido como “Cinematógrafo” e chegou a Lisboa em 1907). Em 1896, Guglielmo Marconi desenvolveu um sistema primário de telegrafia sem fios.

Em 1903, os irmãos Wright construíram e fizeram voar o primeiro avião a motor e, em 1904, foi realizada a primeira chamada telefónica entre Lisboa e o Porto.

Todas estas invenções tecnológicas melhoraram a qualidade de vida de uma parte da população europeia e o ritmo de vida quotidiano tornou-se mais rápido. Na viragem do século a velocidade era a palavra-chave.

Um tempo de enormes diferenças sociais e económicas

Além dos desenvolvimentos tecnológicos motivados pela Revolução Industrial europeia, a Belle Époque foi também marcada por profundas diferenças sociais e económicas entre as famílias capitalistas ricas e as classes trabalhadoras pobres.

Enquanto a grande maioria dos portugueses vivia sob condições miseráveis e deslocava-se em burro ou cavalo, as famílias da classe alta (e entre elas a família do milionário Carvalho Monteiro) compravam automóveis franceses que atingiam 80km por hora. Naquele tempo apenas 150 pessoas possuíam um carro em Portugal, o qual era considerado um bem de luxo.

A sociedade portuguesa em 1900

Em 1900, a sociedade portuguesa era na sua maioria composta por trabalhadores rurais que trabalhavam e viviam em condições muito pobres. As famílias da classe alta assistiam a peças de teatro, espetáculos de ópera e organizavam festas nos jardins das suas mansões onde eram servidas por criadas jovens de 12 ou 16 anos, as quais tinham vindo do campo para trabalhar nas casas abastadas. Enquanto o povo pobre vivia em casas sem água canalizada ou sistema de esgotos, comia pão, batatas ou vegetais e divertia-se organizando piqueniques aos domingos nos arredores de Lisboa, as famílias ricas comiam carne, peixe e doces, jogavam ténis, andavam a cavalo ou caçavam e passavam temporadas nas suas residências de verão de Sintra.

O Palácio da Regaleira

No ano de 1893, Carvalho Monteiro adquiriu a Quinta da Regaleira num leilão público. Esta propriedade tinha pertencido à viscondessa da Regaleira.

Após rejeitar o projeto do arquiteto francês Henri Lusseau, Carvalho Monteiro entrou em contacto, em 1898, com o arquiteto italiano, pintor e cenógrafo do Teatro São Carlos em Lisboa, Luigi Manini. Manini, que tinha trabalhado no Teatro La Scala de Milão, vivia em Portugal há muitos anos e estava envolvido em vários projetos de arquitetura tais como a construção do Palace Hotel do Bussaco, um fabuloso Hotel de 5 estrelas localizado perto de Coimbra. O Palácio da Regaleira foi a sua última grande encomenda em Portugal, até ao seu regresso a Itália em 1912.

Quinta da Regaleira fachada

A construção do Palácio da Regaleira e dos seus jardins começou um ano mais tarde, em 1899, e durou até 1912 envolvendo alguns dos melhores escultores portugueses do tempo como: António Gonçalves, João Machado, José da Fonseca, Costa Motta e Júlio da Fonseca.

A fachada do Palácio foi esculpida em pedra calcária de Ançã, uma pequena vila situada perto de Coimbra que se tornou famosa pela qualidade e flexibilidade deste tipo de pedra. O resultado foi um Palácio de estilo neomanuelino e neogótico com uma decoração exuberante e diversa e totalmente enquadrado na paisagem.

Quinta da Regaleira decoração

A arte neomanuelina marcou a arquitetura portuguesa no final do século XIX: inspirava-se na arte dos edifícios erigidos durante o reinado do rei D. Manuel I em Portugal, entre 1495 e 1521, como o Convento de Cristo ou o Mosteiro dos Jerónimos. Este estilo arquitetónico usava elementos naturalistas e fantásticos como papoilas e alcachofras (símbolos de fertilidade e de esperança na resurreição), cordas com nós e bóias de navios (referências à época dos Descobrimentos Portugueses), conchas e algas marítimas (símbolos da origem da vida), troncos de carvalho (um sinal de perpetuidade), cabeças de leão e sapos (símbolos do mundo animal), cães (símbolo de fidelidade a um princípio superior), cordeiros (sinal de sacrifício) ou pelicanos (símbolos de generosidade e caridade).

Quinta da Regaleira decoração 2

Infelizmente, os pisos superiores do Palácio, onde estavam os quartos da família, o atelier, a sala de desenho e o laboratório de Carvalho Monteiro, estão fechados para restauro desde os últimos 3 ou 4 anos. Não se sabe quando vão reabrir ao público. A antiga cozinha, a copa, a despensa, o refeitório e o dormitório para os empregados juntamente com a casa do gerador elétrico também não se podem visitar.

Atualmente, apenas poderá visitar as salas situadas no piso térreo: as mais impressionantes são definitivamente a sala de jantar com a sua fabulosa lareira de pedra calcária; a sala de estar onde poderá admirar o teto em madeira esculpida de estilo neorenascentista; e a antiga sala do bilhar onde estão expostos os retratos de 20 reis portugueses e 4 rainhas.

A sala de jantar

Quinta da Regaleira sala de jantar

A sala de jantar é a primeira divisão a que terá acesso após passar pelo impressionante pórtico de entrada. No chão encontrará um bonito mosaico veneziano multicolorido com a imagem de um javali.

Os quartos das crianças (Carvalho Monteiro teve dois filhos da sua esposa Perpétua: Pedro Augusto e Maria) localizavam-se por cima desta incrível sala de jantar.

lareira recorte

Esta sala também é conhecida como sala da caça devido à sua magnífica lareira em pedra calcária: a parte superior da lareira mostra cenas de caça extremamente bem esculpidas. O apelido do dono era Monteiro o que em português significa uma pessoa que estava encarregada de organizar as caçadas e, consequentemente, tinha um profundo conhecimento da vida animal.

Quinta da Regaleira | A capela

Quinta da Regaleira capela

A construção da capela ficou concluída em 1910 de acordo com o projeto do arquiteto Manini e foi influenciada pelo estilo neogótico que está presente na verticalidade do edifício (tal como as catedrais europeias medievais com as suas torres apontadas para o céu), nas gárgulas assustadoras e ainda nos pináculos cónicos decorados com motivos vegetais.

Por cima do portal principal verá esculpida a cruz da Ordem de Cristo, uma organização militar e religiosa que foi fundada em 1319 após a abolição da Ordem dos Cavaleiros Templários.

A vigília do corpo de Carvalho Monteiro realizou-se aqui após o seu falecimento em 1920.

Quinta da Regaleira detalhe

Do lado esquerdo do portal principal encontrará a estátua em pedra calcária de Santo António (1195-1231), um frade franciscano e pregador que morreu em Itália, na cidade de Pádua (onde se encontra sepultado) que se tornou no protetor das crianças pobres e dos casamentos.

Santo António realizou muitos milagres durante a sua vida: um dos mais famosos ocorreu quando pregou um sermão aos peixes em Rimini, em Itália, ignorando a população herege que não queria ouvir a sua mensagem.

Em Lisboa, Santo António é muito célebre pois o dia 13 de junho, o dia da sua morte, é feriado público na cidade e no seu concelho.

Quinta da Regaleira capela 1

O interior da capela  

Carvalho Monteiro e a sua família eram muito religiosos. No interior desta magnífica capela, do lado esquerdo, há um vitral onde está representado o milagre que ocorreu na vila portuguesa da Nazaré.

Segundo o milagre a Virgem Maria apareceu a um cavaleiro templário, Dom Fuas Roupinho, quando ele caçava um veado: o veado e o cavaleiro com o seu cavalo caíram do penhasco, mas o cavaleiro templário foi salvo miraculosamente pela Virgem.

Outra das atrações da capela é o requintado mosaico veneziano multicolor que decora o altar-mor e expõe a coroação da Virgem Maria por Cristo com a presença do Espírito Santo, representado pela pomba branca.

Quinta da Regaleira | Os jardins

Quinta da Regaleira jardins 1

Os jardins da Quinta da Regaleira foram também desenhados por Manini. São compostos por uma grande variedade de árvores e de plantas tais como araucárias, teixos, sequóias, sobreiros, pinheiros, castanheiros, fetos arbóreos, tílias, ciprestes, magnólias, camélias, pinheiros de Norfolk ou cedros.

Há vários túneis e grutas para explorar (como a gruta de Leda) juntamente com quedas de água e lagos.

Quinta da Reagleira Gruta de Leda

Encontrará também diversas torres do cimo das quais poderá desfrutar da magnífica vista sobre a paisagem envolvente!

Quinta da Regaleira | O Poço Iniciático

A principal atração da Quinta da Regaleira é definitivamente a sua torre invertida também conhecida como Poço Iniciático.

Carvalho Monteiro era uma pessoa muito enigmática e fora do comum. Por exemplo, havia uma única chave em ouro que abria a porta do Palácio da Regaleira, da sua residência permanente de Lisboa e do seu mausoléu no cemitério dos Prazeres.

Quinta da regaleira poço iniciático

O Poço Iniciático é basicamente uma torre invertida de 27 metros – pode descer através de uma escadaria em espiral que rodeia a torre. A ideia era subir os 139 degraus e realizar uma viagem simbólica das trevas (do subterrâneo) até à luz, ao conhecimento e à verdade. Uma conexão simbólica entre a Terra e o Céu, uma regeneração espiritual e uma mudança interior eram assim alcançadas.

Quinta da Regaleira | O Passeio dos Deuses

Finalmente não pode sair sem visitar o Passeio dos Deuses.

Carvalho Monteiro era uma pessoa altamente culta e eclética que tinha uma profunda admiração pela mitologia clássica grega e romana.

Nos jardins há uma avenida decorada com estátuas de mármore de alguns deuses clássicos como: Vénus (deusa do amor), Dioniso (um deus relacionado com a fertilidade, vitalidade e regeneração da natureza), Vulcano (deus do fogo e da metalurgia) ou Pan (deus dos pastores e da vida animal).


Website e contactos – Quinta da Regaleira, Sintra, Portugal

Nuno Alegria

Nuno Alegria

Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, pós-graduado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras de Coimbra e em Tour Guiding pelo Instituto de Novas Profissões (INP). Guia-Intérprete oficial, fluente em inglês, francês e espanhol, trabalha para a Parques de Sintra e para diversas agências de viagens realizando circuitos turísticos culturais por museus e monumentos de todo o país. Responsável por desenvolver e gerir o projeto da Secrets of Portugal (www.secrets-of-portugal.com), empresa que organiza passeios culturais e históricos a pé por Lisboa e por Sintra.

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