Rafael Bordalo Pinheiro – um artista genial que marcou a arte portuguesa no final do século XIX!

Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) foi um caricaturista magnífico e um ceramista excecional, sempre atento à situação política e social portuguesa, a qual retratou de forma acutilante e criticou de maneira mordaz e humorística.


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Rafael Bordalo Pinheiro destacou-se ainda como ilustrador de capas de livros e de cabeçalhos de revistas ou jornais, alguns dos quais fundados ou dirigidos por ele, como “A Lanterna Mágica” (1875), “O António Maria” (1879) ou “A Paródia” (1900).

Através do desenho, da gravura ou da cerâmica, Rafael não se coibiu de apontar as falhas da classe política, em particular dos chefes de governo Hintze Ribeiro (1849-1907), Luciano de Castro (1834-1914) ou Fontes Pereira de Melo (1819-1887), nem muito menos se conteve nas críticas à atuação da família real portuguesa, representada pelos reis D. Luís I (1838-1889) e D. Carlos I (1863-1908).

 

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 Rafael Bordalo Pinheiro | uma família de artistas

Proveniente de uma família de artistas – o pai era o pintor e escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815-1880) e um dos seus onze irmãos era o brilhante retratista Columbano Bordalo Pinheiro (1856-1929) – Rafael frequentou o curso de Desenho na Academia de Belas Artes de Lisboa.

Viveu durante quatro anos no Brasil e quando regressou a Portugal, em 1879, dividiu a sua vida entre as Caldas da Rainha e Lisboa, onde faleceu aos 59 anos, em 1905.

Portugal na segunda metade do século XIX

Ao mesmo tempo que o primeiro automóvel circulava pelas ruas de Lisboa, em 1895, ou que a primeira chamada telefónica era realizada entre Lisboa e o Porto, em 1904, Portugal era um país maioritariamente rural com uma população analfabeta, cuja maioria vivia em casas sem água canalizada ou sistema de esgotos.

Por volta de 1850, as comunicações entre as regiões eram escassas devido à inexistência de uma boa rede de estradas ou de ligações ferroviárias e o isolamento das populações fazia com que o sistema de pesos e medidas não fosse uniforme. A mula, o burro e o cavalo figuravam entre os principais meios de carga e de deslocação diária de uma população pobre e permanentemente explorada por uma classe política imoral e incompetente.

 

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Apesar da política de fomento de vias férreas, pontes, estradas e redes de telégrafo implementada por António Maria de Fontes Pereira de Melo (1819-1887) – um engenheiro de formação que ocupou vários cargos governativos, tendo sido Ministro da Fazenda, das Obras Públicas e chefe do Governo, entre 1851 e 1886 – Portugal estava marcadamente atrasado em relação ao centro da Europa, onde países como a Alemanha, a Inglaterra ou a França já avançavam para a segunda Revolução Industrial.

Uma geração de intelectuais

Bordalo Pinheiro fazia parte de uma geração de renome e de prestígio literário e artístico que contava com nomes como Eça de Queirós (1845-1900), Oliveira Martins (1845-1894), Teófilo Braga (1843-1924), Ramalho Ortigão (1836-1915), Antero de Quental (1842-1891) ou Guerra Junqueiro (1850-1923).

Foi esta geração de intelectuais brilhantes que atacou – para além da vida dissoluta de muitos padres e da pobreza de espírito de vários jornalistas e académicos – a classe política e as redes de clientelismo que a mesma gerava. Os políticos liberais dependiam dos empregos do Estado, sendo os cargos públicos o destino frequente dos filhos da classe média portuguesa licenciados em Direito na Universidade de Coimbra, então a única Universidade do país.

 

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A debilidade do regime monárquico

O rotativismo entre o Partido Progressista e o Partido Regenerador, que alternavam no poder dentro de um regime monárquico constitucional e parlamentar, já não conseguia satisfazer as necessidades ou aspirações de uma população cada vez mais esmagada pelo peso dos impostos e próxima dos ideais do Partido Republicano, fundado em 1876.

Quanto ao rei D. Luís I, o detentor do poder moderador, este estava mais preocupado em traduzir os poemas de Shakespeare para português, ou em pintar, cantar e tocar violoncelo no seu Palácio da Ajuda, em vez de ter uma presença mais ativa na vida quotidiana do país.

A interrupção pelo Governo da realização das Conferências do Casino, em 1871, em Lisboa – que visavam refletir sobre a situação política, religiosa e social do país e apresentar propostas para diminuir o fosso que separava Portugal do centro da Europa – contribuíram para debilitar ainda mais a imagem do regime monárquico.

O ultimato inglês

O Ultimato do velho “aliado” de Portugal, a Inglaterra, em 1890 – que ameaçava o Governo com represálias militares se o país não retirasse de imediato as tropas portuguesas das regiões situadas entre Angola e Moçambique – acabou por intensificar as críticas à classe dirigente nacional.

 

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Legendas:

1º mandamento – Aceitar sem protesto.

2º mandamento – Agradecer humildemente tanta bondade.

Resultados práticos: –  Portugal fica sendo para todo o sempre, uma loja de engraixadores humildes da Grã-Bretanha… E cara alegre porque o estrangeiro é forte!

Após ter sobrevivido à revolta republicana ocorrida no Porto, a 31 de janeiro de 1891, e ao assassinato do rei D. Carlos I e do príncipe herdeiro, Luís Filipe, a 1 de fevereiro de 1908, o regime monárquico seria finalmente abolido na sequência da Revolução Republicana, de 5 de outubro de 1910.

O Zé Povinho

Uma das caricaturas mais emblemáticas produzidas por Rafael Bordalo Pinheiro foi sem dúvida o Zé Povinho, desenhado em semanários satíricos ou representado como peça de cerâmica.

Surgiu pela primeira vez no periódico “A Lanterna Mágica”, em 1875, e rapidamente se tornou no símbolo de um povo – o português – passivo e submisso, fatalista e conformista, preguiçoso e rural, vítima dos negócios mal explicados desencadeados por uma classe política corrupta apoiada pela conivência e passividade de uma instituição monárquica descredibilizada.

 

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“No dia 6 de Janeiro de 1881, aproveitando a comemoração do Dia de Reis, Rafael Bordalo Pinheiro faz uma ilustração no jornal O Antonio Maria com a representação de Zé Povinho deitado, com a cabeça pousada numa albarda, sustentando os reis de Portugal.
Para identificar o conde D. Henrique, os trinta e três reis de Portugal e ainda o príncipe herdeiro, desenhados por Bordalo até ao ano de 1881, siga a ligação para a página do Museu Bordalo Pinheiro.

Bordalo Pinheiro pertencia a uma geração da classe média que olhava com pena e desprezo para um povo explorado e sofredor, mas inculto, sem horizontes mentais, conformado com o seu destino e que somente encontrava uma forma de protesto no gesto rude do manguito, como em baixo podemos observar.

 

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Rafael Bordalo Pinheiro – o ceramista

Apesar de ter sido um excelente caricaturista, foi como ceramista que o nome de Bordalo Pinheiro ficou na memória de muitos portugueses.

Além de ter fundado a Empresa Bordallo Pinheiro, no início da década de 1880 – com o objetivo de produzir objetos decorativos e desenhar mobílias para o interior de casas de famílias abastadas – Bordalo fundou, em 1883, a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha que ficaria célebre por fabricar molduras para quadros, espelhos, vasos, mísulas e outros objetos cerâmicos.

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O naturalismo

A obra de Bordalo foi influenciada pelo Naturalismo, um movimento estético-literário que se focava na observação da realidade instantânea e imediata e que, em certa medida, surgia como oposição ao desenvolvimento industrial e à sociedade materialista por ele gerado.

O Naturalismo acabaria por influenciar também vários outros artistas plásticos portugueses, como os pintores João Vaz (1859-1931), Silva Porto (1850-1893) ou José Malhoa (1855-1933).

 

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Rafael utilizou os mais variados elementos da Natureza para ornamentar as suas peças de cerâmica da forma mais realista possível como produtos do mar (peixes, como o famoso bacalhau “português”, como em cima observamos), legumes, frutos, animais (como perus ou serpentes) ou mesmo cogumelos.

 

Rafael Bordalo Pinheiro Rafael Bordalo Pinheiro

Os revivalismos

Além de ter sido atraído pela estética naturalista, Bordalo foi influenciado pelos revivalismos historicistas portugueses do final do século XIX. A partir de meados do século XVIII até ao final do século XIX a arquitetura europeia foi marcada por revivalismos históricos que originaram o aparecimento dos estilos artísticos neogótico, neoárabe, neobarroco ou neobizantino. 

Em Portugal, o gosto pelos estilos manuelino e hispano-mourisco – que tinham sido dominantes nos séculos XV e XVI – era agora reavivado e reutilizado por diversos artistas portugueses, como Bordalo. A fabulosa Taça Manuelina, em baixo apresentada, da sua autoria, é disso exemplo.

 

Rafael Bordalo Pinheiro

É uma obra monumental que enaltece o passado nacional e recorre a elementos próprios da epopeia marítima portuguesa como: as caravelas, as redes de pesca, os cordames dos navios (nas asas da Taça), o brasão de armas de D. Manuel I e a esfera armilar (o emblema pessoal do rei), a cruz da Ordem de Cristo, imagens em miniatura do infante D. Henrique ou mesmo do poeta Camões, cujo terceiro centenário do seu falecimento tinha sido celebrado com grande pompa em 1880.

Uma verdadeira obra-prima!

A produção de azulejos

Influenciado pelo movimento artístico britânico Arts and Crafts, Bordalo pretendia ainda não deixar desaparecer as artes tradicionais portuguesas que tinham sido relegadas para segundo plano devido ao desenvolvimento do setor industrial. Por isso mesmo, a azulejaria não foi ignorada pelo artista.

 

Rafael Bordalo Pinheiro

A Arte Nova

O novo estilo decorativo, Art Nouveau – surgido a partir de 1880 em Bruxelas e difundido por Paris, Berlim ou Viena – influenciou os arquitetos belgas Victor Horta (1861-1947) ou Henry van de Velde (1863-1957), o ourives francês René Lalique (1860-1945) e, é claro, o ceramista português Rafael Bordalo Pinheiro, atento às novas tendências artísticas internacionais.

Artigo – O que foi a arte nova (art nouveau) e em que contexto surgiu.

 

 

A Arte Nova, inspirada no naturalismo e no requinte decorativo do estilo rocaille, valorizava os padrões com curvas sinuosas, relevadas e irregulares, as formas vegetalistas, animais e florais fluídas, maleáveis e ondulantes o que concedia uma noção de movimento às obras produzidas. Além disso, utilizava novos materiais como o ferro, o vidro, o aço, o betão ou o ladrilho cozido.

As obras de estilo Art Nouveau foram usadas para decorar o interior e o exterior de lojas, bancos, edifícios públicos, teatros ou museus.

O Museu Bordalo Pinheiro

Se quiser admirar as obras atrás expostas visite o Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, instalado numa casa no Campo Grande, construída em 1913 e então situada nos arredores da cidade.

O seu espólio provém da coleção reunida por Artur Magalhães (1864-1928), um profundo admirador da obra de Bordalo Pinheiro. Aí encontrará as principais obras deste artista multifacetado desde desenhos, gravuras, pinturas até cerâmicas ou caricaturas realizadas em jornais e revistas.

 

Rafael Bordalo Pinheiro

Dotado de grande criatividade e irreverência, senhor de um espírito irrequieto e curioso, possuidor de um enorme poder de síntese e intuição, Rafael Bordalo Pinheiro foi um observador atento e incansável da vida quotidiana portuguesa, pioneiro da banda desenhada e um dos mais brilhantes artistas portugueses de sempre!

Muitas das suas críticas acutilantes à classe política e à mentalidade portuguesa – embora na minha opinião um tanto exageradas, mas que têm que ser compreendidas dentro do contexto social da época – permanecem infelizmente muito atuais!

 

Nuno Alegria

Nuno Alegria

Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, pós-graduado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras de Coimbra e em Tour Guiding pelo Instituto de Novas Profissões (INP). Guia-Intérprete oficial, fluente em inglês, francês e espanhol, trabalha para a Parques de Sintra e para diversas agências de viagens realizando circuitos turísticos culturais por museus e monumentos de todo o país. Responsável por desenvolver e gerir o projeto da Secrets of Portugal (www.secrets-of-portugal.com), empresa que organiza passeios culturais e históricos a pé por Lisboa e por Sintra.

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