A Pintura Expressionista e a deformação consciente da realidade

Expressionismo

Cores intensas. Deformação consciente. Angústias. Expressão das emoções mais profundas que marcaram as pessoas no início do século XX. Eis alguns termos que podem caracterizar o primeiro movimento artístico que a História localiza no começo do século XX, no Ocidente: O Expressionismo e a a Pintura Expressionista .

Estamos em 1904. Inovações técnicas e científicas, progresso industrial e conturbações políticas, entre outras mudanças velozes na organização da sociedade marcam o cenário dessa transição, e isso para não falarmos da Primeira Guerra Mundial, que estava para acontecer.

Mas o que isso tudo tem a ver com arte?

Tudo. A arte questiona e responde ao seu próprio tempo, ainda que seu tema seja atemporal, ainda que diga respeito a um problema da humanidade como um todo, no momento em que é criada. Ela é produzida para dialogar com o seu tempo, seu espaço, e os interlocutores dessas dimensões. 

Die Brücke

Portanto, foi nesse espaço – geográfico e temporal – que um grupo chamado Die Brücke (A Ponte) se organizou em Dresden, na Alemanha, e lançou as bases daquele que seria o primeiro movimento estético do século XX.

Até então, os artistas vinham produzindo obras onde o que mais se destacava eram as sensações de luz e cor – o que se convencionou chamar impressionismo. Eles não estavam preocupados com os dramas humanos ou os problemas da sociedade.

Já na Pintura Expressionista o foco era, fazendo jus ao nome, expressar as emoções humanas mais profundas, as angústias, dores e sentimentos desse “novo homem” que nascia junto com o novo século.

Edvard Munch

Uma das obras que mais está ligada ao movimento certamente é O Grito, do norueguês Edvard Munch (1863-1944). Na obra de Munch, podemos ver a essência do Expressionismo : há uma figura humana (muito disforme, mas é), com linhas sinuosas e tudo na imagem se contorce.

As cores e linhas fortes enfatizam a emoção que o artista quis demonstrar. Isso mostra que, além dos temas (agonias, dores, gritos, dramas) mais conhecidos do movimento, a técnica também foi bem específica – deixar um personagem todo distorcido na frente do observador, com a boca aberta e desesperado, utilizando cores e traços que até então pouco ou nem eram combinados, foi uma atitude praticamente inédita.

O grito Edvard Munch

Edvard Munch. O Grito. 1893, óleo sobre tela. 91×73,5cm.

Pode conhecer o Museu dedicado a Edvard Munch, em Oslo.

“Foram feitas quatro versões dessa obra. Com três em museus noruegueses, a oferta e consequente compra da obra  foi de US$ 119.922,500, feita por um comprador anônimo em um leilão da Sotheby’s”. (curso online Mercado de Arte).

Ernst Kirchner

Já em Cinco Mulheres na Rua, Ernst Kirchner (1880-1938) sugere como é complicado para os seres humanos lidar um com o outro. Perceba a postura das mulheres, sua dureza, seu aspecto amargurado, mesmo que no coletivo. Note que alguma coisa chama atenção do grupo todo, algo alheio, que ao mesmo tempo em que une, separa.

As imagens deformadas criadas pelo artista desse período não são só uma ruptura com a linguagem impressionista, mas uma manifestação de suas angústias mais profundas, e por isso mesmo, coletivas. Nesse sentido, a preocupação era mais temática do que estética, e o uso das cores era feito de forma, digamos, violenta.

Ernst KirschenerErnst Kirschner. Cinco Mulheres na Rua. 1913, óleo sobre tela. 1,20mx90cm

Emil Nolde

Na obra representada abaixo, de autoria de Emil Nolde (1867-1956), podemos ver algumas características que já foram citadas (deformação, sensação de agonia) e também o uso da cor como uma manifestação de tensão.

Emile Nolde

Emil Nolde. Máscaras, Natureza Morta III. 1911, óleo sobre tela. 74cmx78cm.

O grupo Die Brücke desintegrou-se em 1913, e muitos de seus participantes começaram a se interessar pela pintura abstrata. E por falar em pintura abstrata, você já ouviu falar de expressionismo abstrato?

Expressionsimo abstrato

De modo geral, são as correntes da arte abstrata que enfatizam os valores expressivos de uma obra em detrimento de sua composição ou forma.

Pollock

Pollock

Pollock foi um dos artistas que mais se destacou na chamada Action Paintingtécnica extrema do expressionismo abstrato, em que o artista tem, no próprio ato de pintar, uma reinterpretação da pintura.

É preciso compreender uma questão que faz toda diferença: o Expressionismo abstrato está intimamente ligado ao período pós guerra. Nesse sentido, o cenário caótico e fragmentado servia não só como tema em si, mas inspirava mesmo a técnica.

Willem de Kooning

Além de Pollock o pintor holandês Willem de Kooning também fez do Expressionismo abstrato sua linguagem – embora não com a mesma técnica do artista americano.

Na sua série Women, da qual destacamos aqui a Mulher VI dá para notar o que se disse lá no inicio sobre o expressionismo abstrato: o valor expressivo da obra é enfatizado, em vez de sua composição ou forma.

Além do uso das cores (a violência, a não-harmonia), os traços também acentuam a fragmentação do individuo, e no caso específico dessa série há ainda o fator que a torna mais controversa: a discussão de gênero.

Há quem defenda que a imagem que o artista tem do feminino é negativa, tornando a figura da mulher uma espécie de suporte para agressão do masculino. Entretanto, discussões de gênero à parte, essa é uma série importantíssima para a compreensão do expressionismo abstrato e o expressionismo abstrato, por sua vez, é fundamental para que se compreenda o pós guerra e o homem europeu e americano do período.

de Kooning

Willem de Kooning. Mulher VI.1953, óleo sobre tela. 172x123cm.

O Expressionismo é uma lembrança da melancolia humana.

A Pintura Expressionista é um retrato daquilo que faz agonizar, que inquieta. Ao longo do século XX, esse movimento tão necessário vai ser revisitado infinitas vezes. Na arte contemporânea, por exemplo, não são poucos os artistas que tem nele referência, ainda mais considerando ser essa a arte de uma sociedade permanentemente em crise, onde arte é beleza, mas também denúncia do artista, sobre sua própria arte.


Rute-Ferreira

Rute Ferreira

Sou professora de Arte, com formação em Teatro, História da Arte e Museologia. Também sou especialista em Educação à Distância e atuo na educação básica. Escrevo regularmente no blog do Citaliarestauro.com e na Dailyartmagazine.com.  Acredito firmemente que a história da arte é a verdadeira história da humanidade.

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