Pioneiros do realismo social na fotografia

 

O realismo social na fotografia

No final do século XIX, os fotógrafos John Thomson, Jacob Riis e Lewis Hine, compreenderam que a fotografia como documento sociológico podia intervir na sociedade. Casos de pobreza, miséria e de exploração, provocados pela industrialização e imigração nos E.U.A. e Inglaterra, foram assim denunciados.

É com eles que nasce o conceito de realismo social associado à fotografia. Cada um deles seguiu um percurso em áreas de intervenção diferentes. Estes fotógrafos contribuíram assim para a denúncia de mundos sociais desconhecidos, que passavam despercebidos aos olhos das classes mais favorecidas, despertando-lhes a consciência para as classes mais pobres e dos seus problemas sociológicos.

John Thomson (1837-1921)

John Thomson, 1871.

John Thomson, 1871. A sua obra assinala o inicio do realismo social na fotografia.

A obra documental do escocês John Thomson (1837-1921) assinala o início da fotografia de compromisso social.

Thomson em 1873 publica uma obra intitulada Ilustration of China and It’s People, fruto da sua longa passagem pela China. Este projeto em forma de documentário, no qual o texto e a fotografia se complementam, pretendia ser um retrato social da China, mostrando a diversidade étnica e cultural do país.  As imagens  por ele  recolhidas  vão  para além de uma mera representação iconográfica, apresentando um certo nível de humanidade. John Thompson passou por locais onde conquistou a curiosidade de muitos que se deixaram fotografar.

Olhares de mendigos, vendedores, monges, ministros do império, oficiais e mandarins, ficaram para sempre cristalizados nas suas fotografias. Passe cursor nas imagens para ver legendas.

Com o olhar treinado durante a sua viagem pelo Oriente e de regresso a Londres, Thomson passou a registar o quotidiano das pessoas nos seus ambientes de trabalho e nas mais diversas atividades, abordando as condições e os seus estilos de vida. Em 1877, publicou as suas fotografias no livro intitulado “Street Life in London”, com textos do jornalista Adolphe Smith.

As fotografias de indivíduos desprovidos de cidadania que tentavam a todo o custo conduzir a sua vida por meio do trabalho, tinham como objectivo infundir na sociedade uma consciência de necessidade de mudança. Passe cursor nas imagens para ver legendas.

Jacob Riis (1849-1914)

Jacob Riis.Jacob Riis (1849-1914) nasceu na Dinamarca tendo emigrado para os E.U.A.. Acreditava que por meio das suas fotografias e dos seus artigos denunciativos poderia melhorar a situação dos necessitados, que habitavam as regiões pobres de Nova Iorque. As suas fotografias tinham a intenção de chocar, eram cruas e agressivas, porém fiéis à realidade. Crianças sujas nas ruas, mães e filhos vivendo em condições precárias, mendigos, bairros insalubres e o submundo do crime eram constantes no seu trabalho, que a preto e branco aumentava a carga de dramaticidade. O uso do flash de magnésio permitia-lhe  alcançar  lugares  pouco  iluminados.

Riis contribuiu assim para a mudança da mentalidade das classes mais abastadas, que viam na pobreza um estigma social. Em 1890 publicou o livro How The Other Half Lives, que chamou a atenção da sociedade para as condições precárias de habitação de metade da população de Nova Iorque. O livro causou grande repercussão e a sociedade mobilizou-se exigindo que as autoridades amenizassem essas dificuldades. Diversos conjuntos residenciais foram construídos com infraestruturas, luz e saneamento básico, além de parques e áreas de lazer. Ser pobre era um mal que podia ser ultrapassado através da educação, emprego, habitação e cuidados de saúde. Passe cursor nas imagens para ver legendas.

Lewis Hine (1874-1940)

Lewis Hine.Lewis Hine (1874-1940) sociólogo norte-americano tornou-se fotógrafo do Comité Nacional de Trabalho Infantil, para o qual trabalhou durante oito anos.

Viajou pelos Estados Unidos para fotografar a exploração das crianças que trabalhavam em fábricas de fiação,  minas de carvão e em explorações agrícolas. Daí resultaram dois livros sobre o assunto: Child Labour in the Carolines e Day Laborers Before Their Time.

Nestes trabalhos estava estampado a essência da juventude perdida, presentes nas faces tristes e até raivosas das crianças. As suas fotografias não admitiam artifício ou engano. Todo o processo era natural e o resultado deveria representar fielmente a realidade, não deixando de se preocupar com a estética da imagem, embora muitas vezes tivesse que fotografar com a máquina escondida.

Ele utilizou aberta e declaradamente as suas fotografias como armas para sensibilizar a opinião pública, as quais contribuíram para a elaboração de uma lei de proteção laboral para menores.

Com as fotografias dos imigrantes chegando e partindo de Ellis Island e a trabalharem na construção do Empire State Buildings sem proteção, conseguiu que lhes fossem melhoradas as condições de vida.

 

John Thomson, Jacob Riis e Lewis Hine dedicaram-se de uma forma intensa à fotografia de cunho social. Procuraram estabelecer com as suas fotografias a verdade, a objetividade e a credibilidade.

Com eles a fotografia deixou de ter uma mera função artística, passou a transmitir uma mensagem e a exercer influência na sociedade, mostrando ao mundo que as imagens podem mudar consciências.

Na História da Fotografia são considerados os pioneiros do realismo social .

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Disponível no site: https://digital.nls.uk/thomson/index.html

Bárbara de Castro Ferreira

Licenciada em Conservação e Restauro. Curso de Fotografia de Longa Duração, pelo IADE-Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing. Técnica de Gestão e Recuperação de Jardins Históricos e Espaços Verdes. Trabalho na recuperação e manutenção de jardins históricos. Vários prémios e exposições em Fotografia com trabalhos editados.

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