Conversando sobre Patrimônio Cultural com a museóloga Ana Silvia Bloise

Caros colegas, é com imenso gosto que apresentamos a entrevista com a museóloga Ana Silvia Bloise.

O conceito de Patrimônio Cultural é tão amplo quanto a própria noção de Cultura e tem vindo a ser alargado em virtude de sucessivas reflexões, debates, convenções e estudos. As visões sobre o tema são variadas e nem sempre consensuais e, por isso, é importante conversar sobre Patrimônio Cultural!

Ana Silvia Bloise é museóloga e diretora da Oficina 3 Museológica. Atua na concepção e gestão de projetos culturais que facilitam a comunicação do patrimônio cultural com o público, por meio de tratamento e organização de acervos, projetos de exposições e espaços permanentes de memória e atividades educacionais.

Gentilmente acedeu ao nosso pedido para responder a algumas questões colocadas pela colega Emília Mori Fernandes, autora de cursos e artigos sobre o tema, e assim nasceu esta entrevista:

Conversando sobre Patrimônio Cultural com a museóloga Ana Silvia Bloise”

Muito obrigado, Ana Silvia Bloise!


1.- “As iniciativas privadas são uma oportunidade de trabalho…”

Emilia Mori: Alguns anos atrás, quando se pensava em qualificações profissionais nas áreas da museologia e património, as saídas profissionais que se vislumbravam estavam ligadas a organismos públicos ou organizações como a igreja ou misericórdias. O que mudou? As iniciativas privadas constituem hoje uma oportunidade para os profissionais das áreas de museologia e património?

Ana Silvia Bloise: Creio que a mudança começou no período imediatamente posterior à redemocratização do estado brasileiro. Eu havia terminado o Curso de Especialização em Museologia naquela época, Havia um grande interesse em desvendar os arquivos das empresas prestadoras de serviços publicos como a CECP, a Elteropaulo, e a Comgás, por exemplo. Historiadores, arquitetos, museólgos, e outros profissionais passaram a estudar e divulgar  o nosso patrimonio. Foi quando surgiram  museus e centros de memória empresarial. 

As iniciativas privadas são uma oportunidade de trabalho, principalmente em centros mais dinâmicos como no Estado de São Paulo. Hoje muitas instituições privadas nas áreas de saúde, arte e cultura, educação, também já se interessam e desenvolvem trabalhos na área de patrimonio e memória.

 2.- Costumo trabalhar com equipes valorizando os talentos de cada pessoa.”

Emília Mori: As funções de um profissional da área do Património, hoje, vão muito para além da proteção, preservação e exposição. A comunicação com os públicos reveste uma enorme importância. Concorda? E que novas aptidões são necessárias para trabalhar nesta área?

Ana Silvia Bloise:  Costumo trabalhar com equipes valorizando os talentos de cada pessoa. Aprendi que basta gostar de museus e querer estudar, muito e sempre,  tudo aquilo  que for necessário para se tornar um bom profissional.  A Comunicação com o público pode ser um aspecto deste aprimoramento pessoal. Eu valorizo a proatividade, a ética no relacionamentos, o empenho em sempre dar o máximo de si em cada projeto ou desafio que surgir.

 3.- “Seria mais correto, para a maioria, dizer  que se “está curadora” de uma exposição  e não que se “é curadora”como profissão. “

Emília Mori: O nosso curso “Curadoria de Arte” começa com a seguinte frase: A função do curador de arte exige conhecimentos técnicos e de gestão, mas igualmente criatividade e ousadia. A criatividade e ousadia são hoje fatores de diferenciação para os profissionais das áreas da museologia e património?

Ana Silvia Bloise: Noto que hoje quase tudo necessita de curadoria, pois as informações existem em abundância,  mas poucos sabem traduzí-las e utilizá-las sem ajuda de alguma facilitação ou interpretação. A  criatividade na atuação será sempre parte do processo curatorial, mas deve vir com a segurança de se conhecer profundamente o campo em que se atua. 

 Poucas pessoas, pelo repertorio vasto e profundo que adquiriram,  ao longo de anos de estudo e dedicação, podem dizer que tem na curadoria uma “profissão”. Seria mais correto, para a maioria, dizer  que se “está curadora” de uma exposição  e não que se “é curadora”como profissão. 

Falta a muitos curadores a humildade do “fazer em equipe”; e para isso ouvir os colegas, acolher as suas dúvidas e criticas, pois elas fazem parte do processo de concepção de uma boa exposição cultural de qualquer natureza.

As instituições precisam ter a ousadia  de realizar processos mais transparentes de escolha de curadores, e realizar mais co-curadorias, curadorias participativas, escutar educadores, arquitetos, museólogos e conservadores  durante o processo.  

4.- ” Por um lado ajudam muito a divulgar os museus e locais de memória. (…)Por outro lado as novas tecnologias ameaçam…”

Emília Mori: De que forma as novas tecnologias, a web e as redes sociais mudaram os paradigmas relativamente aos conceitos de proteção, conservação e valorização do Património?

Ana Silvia Bloise: Por um lado ajudam muito a divulgar os museus e locais de memória. Museus bem avaliados passam a ser mais visitados.  Por outro lado as novas tecnologias ameaçam: a mentalidade de parte dos gestores da cultura  é substituir o acervo por imagens de acervo, acham  que com isso o museu se “atualizará”, agradará mais  ao público. Não concordo com esta tendência, que coloca em risco a preservação do patrimônio material.

 5.-  “não podemos ter dois mundos, um para se ver e outro para se viver”.

Emília Mori: Em muitos casos a preservação do Património, sobretudo edificado, passa pela sua refuncionalização. Não só para equipamentos culturais, mas igualmente turísticos e habitacionais (um exemplo é a cidade de Lisboa, Portugal, que nos últimos anos tem tido uma enorme revitalização relacionada com a transformação de edifícios do seu centro histórico em hotéis e apartamentos). Esta forma de preservação, financeiramente viável, levanta novas questões relativas aos conceitos de conservação do Património?

Ana Silvia Bloise: Sempre pensei em preservação do patrimonio edificado atrelado a novos usos; não vejo como manter algo sem que tenha alguma utilidade para a sociedade atual, e não devemos pensar apenas em  uso cultural. Não há sociedade com recursos para tanto. Digo que “não podemos ter dois mundos, uma para se ver e outro para se viver”.

6.- “Valorizar a cultura passa pela valorização da educação”

Emília Mori: Apesar das mudanças, ainda há dificuldades políticas e burocráticas na área Museológica, Gestão, Preservação e Patrimônio. Isto dificulta também o acesso para Cultura às camadas menos favorecidas. Com todos esses entraves, as iniciativas privadas surgiram para proporcionar uma cultura mais acessível e de maiores proporções, porém, ainda assim, notamos que a população não possui o mesmo interesse que em outros países. Qual o motivo para isso ocorrer? Por que a cultura no Brasil é tão subvalorizada?

Ana Silvia Bloise: A grande questão é que somos um país ainda imaturo, com pouca experiência e tempo de vida. Não aprendemos a valorizar a educação, que é a raiz de toda e qualquer transformação social justa. Valorizar a cultura passa pela valorização da educação, pelo exemplo, e isso ainda nos falta.

 7.- “No Brasil creio que as pessoas de forma geral estão abertas a valorizar sua história e seu patrimônio, cada dia mais. “

Emília Mori: Mesmo com o interesse de Organismos Internacionais como UNESCO e a ONU, houve muitas dificuldades para a conquista da preservação do Patrimônio Cultural e Histórico que temos atualmente. Por que isso acontece? E em nosso país, a senhora sente as dificuldades na preservação e conservação do Patrimônio Cultural?

Ana Silvia Bloise: A percepção do que é Patrimônio, a ser preservado para as futuras gerações vem se expandindo na história das civilizações humanas. O conceito de patrimonio cultural, histórico e artistico é móvel e vem se ampliando ao longo do tempo.

Já para o indivíduo passa a ser bem cultural aquilo que ele entende como importante, como significativo, que seja sua herança. Esta é a justificativa da necessidade de se trabalhar continuamente na educação para o patrimônio.

O trabalho da ONU e dos organismos como UNESCO, ICOM, ICCROM começou decorrente da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. Os organismos internacionais tem sido de grande valia, eles procuram alertar e sensibilizar os lideres mundiais. Temos que juntos preservar a natureza e também os frutos da civilização humana, em qualquer parte do planeta.

No Brasil creio que as pessoas de forma geral estão abertas a valorizar sua história e seu patrimônio, cada dia mais. Poderíamos ter resultados melhores, caso houvesse uma politica direcionada às classes C e D. Hoje as ações do campo estão praticamente restritas às classes A e B.

As dificuldades a serem enfrentadas são:

1- estabelecer politicas culturais para alcançar efetivamente maior faixa de público de baixa escolaridade. 

2- A falta de punição mais severa àqueles que buscam maximizar o lucro de qualquer forma, colocando em risco a preservação dos bens tombados, ou desviando recursos públicos que poderiam ser destinados à educação e formação nas áreas de cultura, museus, arte e patrimônio. 

8.- “o tombamento sozinho não pode ser visto como a ferramenta que vai garantir a manutenção dos bens patrimoniais; é preciso haver outras iniciativas.”

Emília Mori: Sem mais delongas, gostaria de finalizar com uma questão mais técnica…o tombamento serve para assegurar a manutenção e conservação de bens. Porém, ele não abrange os patrimônios culturais imateriais. Qual a razão que levou o tombamento servir só para patrimônios materiais e, mesmos estes, deverão possuir características específicas para serem protegidos? Por que não abranger todos num só tipo de proteção?

Ana Silvia Bloise: A Constituição de 1988 no artigo 216 ampliou de forma muito inovadora a noção de patrimônio em nosso país. Ela diz que “constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”, ou seja, ela já contempla a dimensão imaterial e material.

O Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, instituído pelo Decreto 3551/00 do IPHAN  é um instrumento legal de preservação ( como o tombamento), de   reconhecimento e valorização do patrimônio cultural imaterial brasileiro .Além do IPHAN,  instituições públicas e privadas reconhecem e trabalham para valorizar os detentores dos saberes e as manifestações da  nossa cultura imaterial.

Ao se consultar a lista de registros realizados no campo do patrimônio imaterial fica  clara a riqueza e a diversidade da cultura brasileira. Ela está viva e, na sua forma mais criativa e espontânea, vai se realizando, independente de disputas ideológicas do momento.

Por fim o tombamento sozinho não pode ser visto como a ferramenta que vai garantir a manutenção dos bens patrimoniais; é preciso haver outras iniciativas. Por exemplo: a possibilidade de venda do potencial construtivo passível de transferência em bens tombados ajuda na sua manutenção e, de certa forma, compensa pelos inconvenientes do tombamento, do ponte de vista de quem é proprietário. outro exemplo: aqui no estado de São Paulo já temos, em várias cidades, a Jornada do Patrimônio, evento que atinge um público crescente que visita espaços, faz passeios e caminhadas, assiste palestras sobre edifícios tombados e assim aumenta o interesse e atenção aos bens a serem preservados.


Ana Silvia Bloise

Ana Silvia Bloise museólogaAna Silvia Bloise teve como formação:  Especialização em Gestão de Políticas Públicas de Cultura, pela Universidade de Brasilia,  Especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Pós Graduação em Museologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de S.Paulo e formou-se  pela Universidade de São Paulo em Ciências Biológicas – Bacharelado e Licenciaturas.

Desde 2001 atua  como diretora técnica e sócia da empresa de museologia Oficina 3 Comunicação Museológica.

Suas áreas de atuação: concepção museológica, implantação dos trabalhos técnicos de salvaguarda e comunicação do patrimônio cultural material, capacitação de trabalhadores do setor cultural e educacional, planejamento cultural institucional, curadoria e montagem de exposições.


A sua opinião:

O que pensa sobre o cada vez maior alargamento do conceito de Património Cultural? Que novos desafios enfrentam os profissionais desta área? E que novas oportunidades?

Deixe a sua opinião nos comentários.

Obrigado!


Emilia Mori foto (002)

Emília Mori

Colaboradora no “Citaliarestauro.com” – Criação e tutoria do Curso “Linhas Gerais da Gestão Museológica” e do Curso “Patrimônio Cultural” e vários artigos. Experiência profissional nas áreas da docência e museologia. Pós Graduação em Gestão e Ensino a Distância; Graduação em História; Pós-graduação em Gestão Museológica;  Pós-graduação em Docência; Graduação em Direito; Pós graduação em Patrimônio Cultural.

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