A Mameluca de Albert Eckhout e o imaginário brasileiro

Neste artigo vamos conhecer a pintura Mameluca, de Albert Eckhout e a sua relação com o imaginário brasileiro.


Mameluca Albert EckhoutImagem: Albert Eckhout, Mameluca, 1641, National Museum of Denmark, Copenhaga.


Albert Eckhout

Goiabas, bananas e outras frutas, de Albert Eckhout.

Goiabas, bananas e outras frutas, de Albert Eckhout.

 

Quando a colonização do Brasil começou, além dos portugueses, os holandeses também dominavam uma parte da região. E na delegação holandesa liderada por Maurice de Nassau vieram artistas que ficaram encantados com a fauna e flora do lugar – a paisagem, frequentemente descrita como exuberante, era-o realmente (e muitas vezes ainda é).

Um desses artistas foi Albert Eckhout.

Eckhout nasceu em 1610 em Groningen e veio para o Brasil em 1637, com o objetivo de registrar visualmente as terras recém-descobertas. De fato, Eckhout era basicamente um cronista visual.

O trabalho de Eckhout tem uma qualidade documental, retratando as pessoas e os lugares de uma terra que era inteiramente nova.

A Flora brasileira

Flora Rembrandt

Flora Rembrandt

 

Embora valha a pena mencionar todo o trabalho de Eckhout, hoje quero mostrar apenas esta flora brasileira. Não a flora exuberante que chamou a atenção de tantos pintores e naturalistas, mas Flora, o personagem mitológico tantas vezes retratado na pintura como a deusa que faz tudo florescer.

A primeira vez que vi essa pintura, ela imediatamente me lembrou a Flora de Rembrandt. Mas o trabalho de Eckhout pode ter me emocionado um pouco mais, porque é um personagem inspirado na imaginação brasileira.

Mas, voltando a Mameluca …

A composição desta pintura é muito bonita e remete para grande parte do Brasil.

Você vê as frutas acima da cabeça da garota? São cajus, uma fruta muito comum no Brasil, conhecida por sua doçura e maciez. Eckhout pode nos fazer notar a textura das folhas e do tronco da árvore com uma técnica impressionante. Esse tipo de realismo era comum entre os artistas que retratavam a flora americana, especialmente da América do Sul.

O detalhe que mais chama a atenção nesta pintura, no entanto, é a própria Mameluca. Seu cabelo curto e encaracolado é adornado com uma tiara e ela usa jóias simples, o que não sugere que ela seja rica, mas que provavelmente foi arranjada para o retrato.

A cesta com flores é a minha parte favorita. Além da composição delicada, a cesta feita de fibras vegetais lembra cestas que minha mãe fez quando eu era criança. Acredite, eles são extremamente complicados de fazer (e uma verdadeira obra de arte quando concluída!).

Ao brincar com luz e sombra, Eckhout também cria um efeito maravilhoso em camadas nas roupas da menina, que mais parecem uma túnica usada na antiguidade. Ela está descalça e a seus pés pequenos roedores se reúnem.

A Mameluca

No contexto da língua portuguesa, especialmente no Brasil, a palavra Mameluca refere-se aos filhos mestiços de europeus (ou descendentes) e indígenas, ou de indígenas brasileiros. Durante o período colonial do Brasil (1500-1815), essas pessoas sofreram vários tipos de segregação, uma vez que a ‘miscigenação’ (relações interétnicas) não era vista com bons olhos nessa sociedade altamente moralista. Bem, o fato é que a garota retratada na pintura tem essa origem, o que reforça a memória de quantas pessoas, etnias e nacionalidades ajudaram a moldar nosso país – e não apenas ele, mas todo o continente sul-americano.


A sua opinião:

Observe todos os cenários novamente. Você tem alguma dúvida de que Eckhout viu sua Mameluca como Flora?

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Rute-Ferreira

Rute Ferreira

Sou professora de Arte, com formação em Teatro, História da Arte e Museologia. Também sou especialista em Educação à Distância e atuo na educação básica. Escrevo regularmente no blog do Citaliarestauro.com e na Dailyartmagazine.com.  Acredito firmemente que a história da arte é a verdadeira história da humanidade.

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