Restauro de escultura em madeira – Veja 1 caso prático de Processo de Intervenção

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Conheça um caso prático de um Processo de intervenção em escultura em madeira dourada e policromada.

Inclui um vídeo com todo o processo descrito.

Do curso online Conservação e Restauro de Escultura.

Escultura em madeira São Gonçalo 1

IDENTIFICAÇÃO

Imagem: escultura em madeira | figura de vulto inteiro representando  São Gonçalo.

 Madeira (castanho). Policromada e dourada.

Dimensões – 150x55x43cm.

ENQUADRAMENTO HISTÓRICO E ARTÍSTICO

 Escultura em madeira provavelmente datada do final do séc. XVII e principio do séc. XVIII.

 Arte sacra – imaginária religiosa.

Assinaturas/ Marcas/ Inscrições – Parte da designação do santo, no pedestal.

A imagem de escultura em madeira encontra-se a culto.

Intervenções anteriores

 Imagem totalmente repintada. Lacuna preenchida no pescoço, talvez a gesso (sulfato de cálcio), pois não foram efetuadas análises físico-químicas que o comprovasse.

ESTADO DE CONSERVAÇÃO

A escultura em madeira encontrava-se em muito mau estado.

 Suporte

 Fortemente atacada por insetos xilófagos (possivelmente Anobídeos-caruncho) visível em toda a peça;Restauro de escultura banner

Ataque por fungos no pedestal

Acumulação de sujidade

Elemento em risco de destacamento na cabeça e no pedestal;

Elementos destacados: Dedo mindinho da mão direita e o pé esquerdo;

Presença de elementos metálicos oxidados e zonas circundantes contaminadas (cabeça, ombro, livro, tardoz, panejamento e pedestal);

Fendas e fissuras por toda a peça destacando-se as do rosto;

Lacunas volumétricas: Na parte frontal do cabelo, totalidade do dedo polegar da mão direita, dedo indicador da mão esquerda, rebordo do manto, na batina, pé esquerdo e grande parte do pedestal.

Lacuna preenchida a gesso (?) no pescoço.

Instabilidade estrutural devido ao forte ataque dos insetos xilófagos e fungos.

Preparação

 Em bom estado geral. Inexistência da camada de preparação na parte destacável da cabeça.

Policromia

Forte acumulação de sujidade e poeiras;

Camada de proteção oxidada;

Lacunas da policromia e da folha metálica um pouco por toda a peça;

Destacamentos e risco de destacamentos da policromia; Escorrências de goma-laca;

Repinte geral. De salientar três camadas de repinte nas carnações.

TRATAMENTO DO SUPORTE DA ESCULTURA EM MADEIRA | SÃO GONÇALO

Limpeza mecânica

Limpeza mecânica a trincha, pincel, bisturi e aspirador.

Remoção das partes oxidadas e escorrências (as mais persistentes) a bisturi.

Restauro área bannerFixação da policromia

Fixação da superfície policroma com um PRIMAL B60 (adesivo acrílico). Para uma melhor penetração do adesivo optou-se primeiramente por aplicar um agente humidificante (ETANOL).

Desinfestação

Desinfestou-se a peça com um inseticida especialmente adequado a obras de conservação e restauro.

A aplicação foi efetuada a trincha e por injeção, de forma a penetrar em profundidade e tratar todos os estratos do suporte afetados.

Consolidação

 Consolidação por deposição a trincha e por injeção.

Aplicação de resina acrílica (PARALOID B72) a 5, 10 e 15%, diluído em XILOL (solvente orgânico).

Algumas partes necessitaram de uma aplicação a 30% de concentração de resina, principalmente no pedestal e no manto.

Elementos em risco de destacamento/ destacados

 O pé esquerdo, dedo mindinho da mão direita, e o canto direito do pedestal, encontravam-se destacados.

Removeram-se todos os elementos metálicos oxidados que já não cumpriam a sua função.

Os que não puderam ser retirados, foram desoxidados e protegidos com um filme de PARALOID B72.

Preenchimento e nivelamento de lacunas do suporte

Preenchimento de fendas e pequenas lacunas volumétricas com madeira castanho, balsa e ARALDITE SV 427 (resina epóxida).

Reconstituição volumétrica

 Foram executadas três reconstituições volumétricas na cabeça desta escultura em madeira de São Gonçalo.

Cinco no manto, uma na mão esquerda e outra na mão direita (reconstituição integral do dedo polegar), uma na veste e outra na “estola” e na quase totalidade do pedestal.

Empregou-se madeira balsa nas reconstituições mais delicadas, optando-se por uma madeira mais robusta (castanho – de essência semelhante ao original) para o pedestal e parte do manto.

 Hidratação do suporte

Hidratação do tardoz da escultura com CERA de ABELHA

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TRATAMENTO DA POLICROMIA E DECORAÇÃO

Limpeza química da escultura em madeira

Por não se obter bons resultados com o teste de solventes (método de Feller), optou-se pela utilização de uma solução em gel (CMC  em água) com a adição de 50% de CONTRAD 2000 (detergente aniónico) para que este atuasse ao nível da superfície.

Para a remoção e neutralização da solução, utilizou-se WHITE SPIRIT.

Por vezes houve a necessidade de recorrer a pachos embebidos.

No suporte (abertura no tardoz) fez-se uma limpeza com WHITE SPIRIT.

Levantamento do repinte

 Efetuou-se o levantamento mecânico (a bisturi) do repinte somente nas carnações por se ter verificado nestas o bom estado geral de conservação da policromia original.

Na restante peça não se realizaram quaisquer intervenções deste tipo, devido ao mau estado de conservação da camada policroma original.

Preenchimento e nivelamento de lacunas da superfície cromática

Preenchimento de lacunas com um massa de preenchimento à base de polpa de celulose.

preparação branca existente, de natureza pulverulenta foi removida aquando da limpeza mecânica.

Antes de se aplicar a nova preparação procedeu-se a uma limpeza superficial do suporte a cotonete humedecida em ACETONA.

O preenchimento foi aplicado a pincel e a espátula, intercalando as várias camadas com nivelamentos a carta abrasiva e bisturi.

Reintegração cromática

Após o preenchimento e nivelamento de lacunas da superfície cromática, procedeu-se à intervenção pictórica a aguarela.

Foi utilizada a técnica de reintegração não diferenciado seguindo o método mimético ou ilusionista, podendo desta forma dar continuidade à unidade cromática do original.

Nas zonas douradas optou-se pela reintegração a tratteggio (método diferenciado).

 Aplicação da camada de proteção

Aplicação de duas camadas de resina acrílica (PARALOID B72) diluído a 4% em XILOL.


Pode visualizar todo o processo no seguinte vídeo.


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4 Comentários. Leave new

  • Olá , ,
    pode me dizer o tempo de solidificação da resina, e se essa resina consegue interiormente vedar os canais feitos pelos insectos (caruncho) e se a rigidez obtida se é relativamente igual á da madeira ?

    Tenho um problema parecido mas em uma guitarra portuguesa .

    Parabéns pelo trabalho , e obrigado
    Cumprimentos

    Responder
    • Fátima Muralha
      20/10/2019 16:14

      Olá Miguel, obrigado pelo comentário.
      A resina mencionada é especifica para madeira pelo que a rigidez é semelhante. Funciona em conjunto com um endurecedor. As proporções resina / endurecedor devem ser bem analisadas conforme a situação especifica seguindo as indicações do fabricante.
      Aconselha-se prévio tratamento dos xilófagos da madeira antes do preenchimento com a resina.
      Bom trabalho!

      Responder
  • Filipa Lopes
    22/05/2022 22:58

    Olá,
    A desinfestação da peça com inseticida foi executado enquanto os insetos xilófagos estavam ativos?

    Responder
    • Olá, sim, existiam xilófagos ativos. O ideal é fazer a desinfestação por 2 vezes com a diferença de algumas semanas. Para anular os ativos primeiro e posteriormente as larvas que terão entretanto eclodido. Obrigada

      Responder

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