Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos

Neste artigo conheça o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos e o papel histórico das sociedades Africanas em diáspora na formação das nossas sociedades atuais.


Imagem de capa:  Fotografia de um menino escravo em Zanzibar, em 1890, National Maritime Museum, Greenwich, London, England, Michael Graham-Stewart collection.

Por: Manuela Tenreiro, autora do curso online Arte Africana


Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos

A importância das culturas da Diáspora Africana para as sociedades contemporâneas levou as Nações Unidas a declarar 2015 a 2024, Década Internacional de Afrodescendentes, sob os temas Reconhecimento, Justiça, Desenvolvimento e Discriminação Múltipla.

As nações do mundo, particularmente as da Europa Ocidental e do continente Americano, foram assim chamadas pela ONU à sua responsabilidade de criar legislação no combate à intolerância, ao racismo e à xenofobia.

Ainda neste contexto, dia 21 de Março foi declarado Dia Internacional Contra a Discriminação Racial e hoje, 25 de Março, assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos .

O papel histórico das sociedades Africanas em diáspora na formação das nossas sociedades atuais

Somos assim convidados a refletir sobre o papel histórico das sociedades Africanas em diáspora na formação das nossas sociedades atuais.

A referência específica ao tráfico transatlântico de escravos que ocorreu durante quase 400 anos, entre os séculos XV e XIX, homenageia os cerca de 12.5 milhões de Africanos arrancados das suas terras e às suas famílias, depositados em territórios desconhecidos e hostis, sujeitos a um sistema escravocrata sem precedentes, e aos quais se deve a geração de riqueza e os lucros que desenvolveram o ocidente, possibilitando a Revolução Industrial, e assim cavando o fosso de desigualdade económica que até hoje persiste e separa a Europa e a África.

Memória da escravidão Navio de escravos negreiro inglês, 1822

Navio negreiro inglês, 1822

O Luso-tropicalismo

Conhecer esta história é essencial para entender a formação do mundo moderno mas também para promover a apreciação pelas culturas Africanas na sua origem, bem como em diáspora.

Até há poucos anos em Portugal este era um tema extremamente sensível. Ainda o é. Muitos Portugueses não gostam ou não querem ser confrontados com uma história que lhes retira o papel de heróis e os apresenta como vilãos. A sociologia à volta dessa atitude é tão interessante como o Luso-Tropicalismo – a teoria que a explica -, enunciado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, e que muito serviu o Estado Novo de Salazar como estratégia discursiva de combate aos movimentos anticoloniais no pós-guerra.

Em traços gerais, o Luso-Tropicalismo assenta em ideias que a muitos de nós ressoam na mente como verdades históricas: a capacidade de adaptação do português aos trópicos, a sua atitude ‘benevolente’ e ‘paternal’ com os ‘outros’ em graus diferentes de primitivismo, a sua bravura pioneira, o seu amor pelas mulheres negras e indígenas, enfim, a sua missão evangelizadora e o seu ‘dar mundos ao mundo’.

É uma história onde os Africanos se tornam personagens de uma espécie de E Tudo o Vento Levou, integrados numa família que os protege de tudo (incluindo a sua própria liberdade, para a qual supostamente não estariam preparados); uma história escrita quase como uma longa sucessão de homens de grandes feitos, celebrados na arte monumental de um Padrão dos Descobrimentos ou em grandes exposições nacionais como as Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique em 1960. E uma história que o Estado Novo promovia ativamente, censurando qualquer outra versão, como experienciou o historiador britânico Charles Boxer, interditado de voltar a pesquisar os arquivos portugueses após a publicação do seu livro Relações Raciais no Império Português em 1964.


Leia mais sobre o Luso-tropicalismo neste artigo da investigadora Cláudia Castelo.


Os estudos sobre a Diáspora Africana

Curiosamente, e embora o Estado Novo tenha caído há quase meio século, os compêndios escolares pouco fizeram para alterar essa narrativa, pelo que a educação da história continuou a perpetuar geração após geração uma propaganda que pertence ao tempo da ditadura. A palavra ‘escravo’ aparece sempre de passagem, casualmente inserida entre produtos, como as especiarias e metais preciosos, e como se de mais uma mercadoria e não um ser humano se tratasse.

Assim eram considerados os escravos naquela época, mas isso não justifica que nos textos atuais se mantenha esse mecanismo de (não) contar a história, de não aprofundar a análise e idealmente provocar a própria auto reflexão de cada um.

Esta falta de conhecimento de uma fatia importante da nossa própria história contrasta fortemente com a situação em outros países com um passado escravocrata, onde os Estudos da Diáspora Africana já levam algumas décadas de avanço, com especial enfoque para a Diáspora Africana no continente Americano.

Países como o Brasil, os Estados Unidos, ou as nações das Caraíbas agregam-se num espaço que o teorista Paul Gilroy denominou de Atlântico Negro onde continuidades Africanas vão sendo pontualmente sincretizadas com influências Europeias, Nativo-Americanas e até mesmo Asiáticas, ou permanecem praticamente intactas numa resistência da memória, como os cantos do cubano Francisco Aguabella, que podem ser rastreados ao longo da costa brasileira e através do oceano até à África ocidental.

Esta história será contada em breve aqui na Citaliarestauro no curso já em preparação, Artes e Culturas da Diáspora Africana.

Projeto para o Memorial da Escravatura

Projeto para o Memorial da Escravatura

A presença Africana em Portugal

Apesar do atraso académico em Portugal relativamente a estudos do tráfico transatlântico e da diáspora Africana, não faltam provas da presença Africana em Portugal desde a Idade Média, apesar da perceção ser de que tal não teria acontecido em massa até ao 25 de Abril de 1974. Das descrições de Zurara quando em 1444 chegaram a Lagos os primeiros cativos, até às representações de negros em Portugal ao longo dos séculos, passando por relatos de viajantes, como o italiano João Baptista Venturino que escreveu sobre o infame Paço Ducal de Bragança onde no século XVI já existiam instalações de ‘escravos reprodutores’, a verdade é que sendo a presença negra em Portugal tão forte e visível a todos ao longo dos séculos, nós, no Portugal pós-Abril, pouco ou nada aprendemos sobre ela.

Estudos e projetos

Ainda assim, a somar às pesquisas da professora Isabel Castro Henriques, professora pioneira de Estudos Africanos desde 1974, que nos últimos anos se vem dedicando à pesquisa dos Africanos em Portugal, pesquisadoras como por exemplo Marta Araújo do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e Cristina Roldão da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, têm desenvolvido um notável trabalho para trazer à educação portuguesa essa história que ficou de lado.

Similarmente, uma nova geração de afrodescendentes portugueses tem agitado a cultura Portuguesa, aliando-se em projetos culturais, formando associações literárias, artísticas, políticas. Destaco a Djass – Associação de Afrodescendentes, fundada em 2016 com a missão de combater o racismo e promover a igualdade e a cultura Africana em diáspora; o INMUNE – Instituto Nacional da Mulher Negra, dedicado às questões interseccionais que cruzam a discriminação de género e raça; a Associação Batoto Yetu, que promove a cultura Africana, com enfoque na dança e na música, junto dos jovens afrodescendentes em Portugal; ou, o grupo Djidiu, contadores de histórias, impulsionado por Carla Fernandes, a fundadora da rádio AfroLis.

Memória da escravidão setubal africana

Leia mais aqui sobre o projeto de Setúbal Africana

a contribuição Africana para a cultura portuguesa começa a ganhar o destaque que merece…

Graças ao trabalho desenvolvido por tanta gente, a contribuição Africana para a cultura portuguesa começa a ganhar o destaque que merece. Em breve, planeada para ainda este ano, Lisboa contará no Largo José Saramago (conhecido como Campo das Cebolas, e onde um dia funcionou um mercado de escravos) com um Memorial da Escravatura criado pelo artista angolano Kiluanji Kia Henda, uma obra escultórica e alusiva à plantação de açúcar. Nos últimos cinco anos assistimos também a iniciativas similares aos Black History Walks em Londres ou os Black Heritage Tours em Nova Iorque. A mais recente foi lançada em Setúbal com o roteiro A Presença Negra na Cidade de Setúbal. A iniciativa veio juntar-se ao Núcleo Museológico de Lagos na Rota da Escravatura, iniciado em 2016, no mesmo ano em que a Associação Batoto Yetu Portugal lançou o roteiro Espaços da Presença Africana em Lisboa baseado na publicação dos historiadores Isabel Castro Henriques e Pedro Pereira Leite (faça download aqui). E em Lisboa existe ainda a African Lisbon Tour organizada por Naky Gaglo, que veio do Togo para a Europa e se apaixonou por este nosso Portugal Africano.


Em homenagem ao Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, quando procuramos sensibilizar e dar a conhecer uma história que maltratamos durante tanto tempo, a Citaliarestauro quer partilhar com o seu público o excelente trabalho de investigação sobre a presença Africana secular no nosso país.

A cultura Africana em Portugal acrescenta à nossa própria história uma outra dimensão, conferindo-lhe uma dinâmica e uma enorme riqueza que já tardam em ser representadas e tornadas visíveis nos nossos livros de escola, no nosso conhecimento e principalmente no nosso reconhecimento pelo papel dos Africanos no nosso próprio desenvolvimento e enriquecimento cultural.

Para terminar, como testemunho dessa herança, deixamos este pequeno documentário sobre uma tradição Africana em Portugal resgatada de um tempo quando o Fado era dançado.


Manuela Tenreiro

Doutorada em História da Arte pela School of Oriental and African Studies, linha de pesquisa em Artes e Culturas da Diáspora Africana (2008). Estudou artes visuais e fotografia em São Francisco onde atuou como mediadora no mural Pan-American Unity de Diego Rivera. No Brasil, onde residiu entre 2008 e 2017, criou e editou a publicação cultural bilíngue conTRAmare (2013-2018), e colaborou em projetos editoriais, de arte educação, redação, tradução e pesquisa histórica. No Rio de Janeiro frequentou o Curso de Tradução Literária DBB e o Programa Avançado de Cultura Contemporânea na UFRJ. Em Lisboa desenvolve projetos de tradução, escrita e educação nas áreas de história da arte e das culturas da diáspora africana, vindo também a dedicar-se à aprendizagem de ferramentas para a execução de projetos na área das humanidades digitais.

Da autora

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