A Memória em Chamas | Incêndio atinge o Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro

02 de setembro de 2018. Domingo. Uma data lamentável para a memória e história do Brasil. Por volta das 19:30 o Museu Histórico Nacional, na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio de Janeiro, foi atingido por um incêndio de grande proporção que destruiu praticamente todo seu acervo.

Artigo da historiadora de arte Rute Ferreira

A Memória em Chamas

O fogo só foi controlado mais ou menos às 4h da manhã, segundo a assessoria de imprensa do Corpo de Bombeiros. Para controlar as chamas, além do batalhão de São Cristovão, mais onze quarteis da região deram apoio, entretanto, os hidrantes estavam sem pressão no começo da operação. A alternativa foi usar bombas que sugaram a água de um lago perto do museu. Isso atrapalhou o combate ao fogo, que se espalhou rapidamente pelo prédio bicentenário, que contava com grande parte de sua estrutura em madeira e tinha muito material inflamável.

No momento do incêndio, o museu já estava de portas fechadas e apenas quatro vigilantes estavam no local. Todos conseguiram sair a tempo. A Polícia Civil já abriu inquérito para investigar as causas do fogo, sobretudo para saber se foi incêndio criminoso ou não.

Hoje (03) de manhã os técnicos da Defesa Civil entraram no Museu para avaliar o que foi destruído pelo fogo. Além de ver a dimensão do estrago, eles também esperam encontrar peças que possam ser salvas.

Pela manhã, alguns vasos e partes de outras peças em barro e metal foram recuperadas.

Museu Histórico Nacional 1

 

O Museu Histórico Nacional

Museu Histórico Nacional 2

 

 

O Museu Histórico Nacional  , que é a instituição científica mais antiga do país, completou 200 anos em junho deste ano. Fundado por D. João VI em 6 de junho de 1818, a casa já foi o lar da família real portuguesa e da família imperial brasileira. Além disso, foi sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana. Apesar de sua história e importância para o Brasil, a instituição vinha sofrendo com descaso há vários anos: funcionava com orçamento reduzido e tinha  sinais evidentes de má conservação, como fios elétricos aparentes, paredes descascadas e até uma infestação de cupins.

 

 

 

Fachada do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

(Foto: Reprodução/ Roberto da Silva/ Museu Nacional)

 

Em 2013, o Museu chegou a interromper alguns de seus serviços por não ter como pagar os funcionários. A verba anual, que deveria ser de R$ 550 mil, não chegava a 60% desse valor. Só recentemente a instituição conseguiu um investimento de cerca de R$ 20 mil do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, justamente para um projeto de prevenção a incêndios. A ideia era transferir as coleções com materiais inflamáveis para prédios anexos.

 

O diretor-adjunto do Museu Nacional, Luiz Fernando Dias Duarte afirmou que foi uma dificuldade imensa obter esses recursos. Em entrevista, ele relembra o descaso: “Nunca tivemos um apoio eficiente e urgente para esse projeto de adequação do palácio. Agora todo mundo se coloca solidário”, desabafou.

 

A coleção do Museu Nacional reunia mais de 20 milhões de itens.

Não era apenas a História Brasileira que estava ali. Havia uma enorme coleção egípcia, que começou a ser adquirida pelo próprio imperador D. Pedro I e uma coleção de arte greco-romana, trazida até ali pela imperatriz Tereza Cristina. Livros raros e objetos da cultura afro brasileira, indígena e até mesmo do Pacífico estavam sob a salvaguarda do Museu. Entre as preciosidades perdidas para sempre, tínhamos o fóssil de Luzia, o esqueleto mais antigo já encontrado nas Américas, com 12 mil anos de idade.

Professores, pesquisadores e estudantes foram diretamente afetados com o incêndio, pois o Museu era ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tinha perfil acadêmico e científico.

 

Por reunir objetos de pesquisa raros, de relevância não só para o Brasil, mas para o mundo, a perda do Museu Nacional é imensurável e irreparável. O descaso por parte do poder público é um retrato da falta de investimento do governo brasileiro em seus bens culturais. De fato, uma perda irremediável.


 

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