Batoto Yetu Portugal: 25 anos a promover as culturas africanas em Portugal

Conheça as iniciativas da associação Batoto Yetu Portugal para a promoção e divulgação das culturas africanas em Portugal.

culturas africanas batoto yetu

Texto – Manuela Tenreiro, autora dos cursos online Arte Africana e Artes e Culturas da Diáspora Africana.

Imagem de capa – Júlio Leitão e um grupo de crianças (https://batotoyetu.org/)

A Associação Batoto Yetu Portugal

A Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu Portugal (BYP) foi fundada em 1996 em Caxias, no Município de Oeiras, pelo coreógrafo e bailarino angolano Júlio Leitão, com o objetivo de divulgar as expressões culturais africanas junto das comunidades afrodescendentes.

Apoiada desde o início pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), a BYP assentou em pilares que a sustentam até hoje, como o associativismo de cariz social, o conhecimento das culturas africanas e a valorização dessas raízes nas comunidades em diáspora.

Desde o início, as atividades da BYP voltaram-se para os jovens afrodescendentes, com o intuito de lhes conferir um sentimento de autoestima, de pertença e de orgulho nas suas raízes. Um objetivo refletido no próprio nome da associação; Batoto Yetu significa em swahili, “as nossas crianças”.

As culturas africanas nos EUA e o inicio da Batoto Yetu

Os princípios e objetivos da associação tinham tomado forma seis anos antes nos Estados Unidos da América, país onde as questões ligadas à história da Diáspora Africana estavam (e permanecem hoje) muito mais articuladas e destacadas do que em Portugal.

Em 1990, Júlio Leitão tinha fundado a Organização Batoto Yetu original, no Harlem em Nova Iorque, o bairro icónico onde, nos loucos anos da década de 1920, ganhou dimensão internacional o importante movimento artístico da Harlem Renaissance.

A enorme concentração de afro-americanos neste pequeno borough na ilha de Manhattan, originou uma tradição artística com base no associativismo comunitário e em linguagens estéticas que reportavam a África e às culturas africanas. Um movimento que ficou conhecido por Harlem Renaissance.

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O objetivo

A valorização das raízes culturais, pautada por um olhar sobre as tradições culturais africanas, tinha como objectivo precisamente a valorização e autoestima das comunidades afro-americanas, num contexto histórico de segregação e práticas racistas legalizadas.

Foi esse espírito, presente no Harlem, que esteve na génese do nascimento da Batoto Yetu e que viria a marcar também os princípios fundadores da Associação Batoto Yetu Portugal a partir de 1996.

A difusão das culturas africanas através da dança e da música

Através do trabalho inicial de difusão das danças e músicas tradicionais africanas junto dos jovens afro portugueses, a BYP inaugurou em Portugal um projeto único, ao qual aderiram jovens, alguns dos quais viriam a se destacar no campo artístico ou mesmo nas atividades da associação, como é o caso de José Lino Neves que hoje dirige a BYP nas suas múltiplas atividades.

Presente na associação desde o início, entrou como bailarino atraído por uma abordagem que se focava na cultura e na diáspora africanas, como um todo, e não apenas restrita aos países africanos de expressão portuguesa.

Os 25 anos da Batoto Yetu

Ao longo de 25 anos a BYP cresceu e expandiu-se por diversos campos do conhecimento e da ação social.

As danças e músicas permaneceram atividades essenciais, um conhecimento transmitido aos jovens por mestres africanos, do qual se destacou o mestre Mamady Keita (1933-2021), bem como outros mestres oriundos de vários locais da diáspora.

Culturas africanas Mamady Keita

Mamady Keita, Fonte: wikipedia

 

Seguiram-se os eventos que permitiam a própria sustentabilidade da associação, além de fortalecerem os objetivos de transmissão e valorização das culturas africanas.

O Fado dançado

Foram as danças aliás que conduziram à primeira ponte estabelecida entre a associação e a academia. Em parceria com o professor José Machado Pais do Instituto de Ciências Sociais, a BYP colaborou no desenvolvimento do projeto Fado Dançado, precursor do Fado como hoje o conhecemos e, nos séculos XVIII-XIX, associado com danças afro-brasileiras como o Lúndu, a Fofa, a Umbigada, a Congada, e africanas como a Kola San Jon em Cabo Verde, a Puita em São Tomé, e a Arrebita de Angola.

Veja o documentário sobre o fado dançado

As pesquisas relacionadas com o Fado Dançado, por sua vez, colocaram a BYP em contato com outros pesquisadores da Diáspora Africana em Portugal, como é o caso da Professora Isabel Castro Henriques do ISEG.

Paralelamente, abriram caminho para uma enorme vontade de saber mais. Nomeadamente, conhecer os locais onde as manifestações culturais e vivências da presença africana marcaram a história de Portugal. Por onde se dançavam estas músicas e quem eram os protagonistas destas histórias de africanos e afro portugueses? Dirigindo-se ao público na apresentação do livro Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana, da autoria de Isabel Castro Henriques (recentemente lançado nos jardins do Palácio Pimenta-Museu de Lisboa), José Lino Neves da BYP confessou que gostaria de ter aprendido na escola sobre estas “personagens e histórias cativantes” referindo ainda a sua esperança de que a divulgação deste conhecimento consiga mobilizar os jovens afrodescendentes para várias áreas de pesquisa.

A pesquisa sobre as culturas africanas

A pesquisa e o conhecimento histórico têm sido uma das áreas que mais recebem o apoio da associação.

Desde 2016 que a BYP conduz visitas guiadas aos lugares da presença africana em Lisboa e aguarda que a CML proceda à colocação de 20 placas e 2 estátuas que assinalam essa presença.

Apoiou ainda vários livros sobre o tema, como por exemplo “A Escrava Domingas” de António Chainho ou “A Balada de Herculano Mercês” de Aristóteles Kandimba, assim como vários livros da professora Isabel Castro Henriques, como o Roteiro Histórico mencionado acima ou o livro “Os «Pretos do Sado» – História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV)”, que contou com a colaboração de João Moreira da Silva.

A Batoto Yetu Portugal dá ainda apoio escolar e emprego, e acompanhamento às comunidades migrantes nas questões relacionadas com a regularização da nacionalidade. Para as suas inúmeras atividades conta com os apoios das Câmaras Municipais de Oeiras e de Lisboa, bem como do Alto Comissariado para as Migrações, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, do Instituto do Emprego e Formação Profissional e ainda da Embaixada dos Estados Unidos nomeadamente para iniciativas como o Projeto Afro-Atlântico, atualmente em marcha, que consiste numa série de conversas online com ativistas e representantes do movimento negro norte-americano.

 

Para mais informações ou para conhecer e acompanhar o trabalho da Batoto Yetu Portugal, siga a associação no YouTube, Facebook ou entre em contacto via batotoyetu@gmail.com.

Para aprender mais sobre a arte e as culturas africanas

Manuela Tenreiro

Doutorada em História da Arte pela School of Oriental and African Studies, linha de pesquisa em Artes e Culturas da Diáspora Africana (2008). Estudou artes visuais e fotografia em São Francisco onde atuou como mediadora no mural Pan-American Unity de Diego Rivera. No Brasil, onde residiu entre 2008 e 2017, criou e editou a publicação cultural bilíngue conTRAmare (2013-2018), e colaborou em projetos editoriais, de arte educação, redação, tradução e pesquisa histórica. No Rio de Janeiro frequentou o Curso de Tradução Literária DBB e o Programa Avançado de Cultura Contemporânea na UFRJ. Em Lisboa desenvolve projetos de tradução, escrita e educação nas áreas de história da arte e das culturas da diáspora africana, vindo também a dedicar-se à aprendizagem de ferramentas para a execução de projetos na área das humanidades digitais.

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